Do sertão ao mundo: mel do Piauí movimenta milhões e conquista mercados

O Piauí transformou a riqueza de suas floradas nativas em uma das atividades mais importantes da agricultura familiar. Em 2025, o estado produziu 8.560 toneladas de mel, movimentando aproximadamente R$ 116,8 milhões em valor de produção e conquistando a terceira posição no ranking nacional. Presente em 146 dos 224 municípios piauienses, a apicultura demonstra que a biodiversidade da Caatinga e do Cerrado também representa uma importante fonte de desenvolvimento econômico.

Os números da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que o Piauí respondeu por cerca de 12% de todo o mel produzido no Brasil em 2025. A atividade alcança 65,17% dos municípios do estado e tem forte participação de pequenos produtores rurais.

Neste 19 de outubro, quando o Piauí celebra 204 anos de sua adesão à Independência do Brasil, a cadeia produtiva do mel representa uma das expressões da capacidade de transformar recursos naturais em trabalho, renda e oportunidades.

São Raimundo Nonato e Picos lideram a produção

Dois municípios piauienses aparecem entre os dez maiores produtores de mel do Brasil. São Raimundo Nonato ocupa a quarta posição nacional, com 897,4 toneladas produzidas em 2025. Picos aparece em décimo lugar, com 724 toneladas.

Outros municípios, como Simplício Mendes e Conceição do Canindé, também possuem participação expressiva na cadeia apícola estadual.

A atividade cresceu significativamente nas últimas décadas, impulsionada pela organização de produtores, pela formação de cooperativas e associações e pelo aproveitamento das floradas naturais do semiárido.

Apesar da posição de destaque, o Piauí registrou redução de 0,63% na produção em 2025, depois de uma queda de 2,5% em 2024. O resultado reforça a necessidade de investimentos em assistência técnica, adaptação climática e fortalecimento da cadeia produtiva.

Floradas nativas dão identidade ao mel piauiense

A diversidade da vegetação é uma das características mais importantes da produção estadual. Espécies como marmeleiro, aroeira, angico, mororó e outras plantas nativas oferecem recursos florais utilizados pelas abelhas.

A origem botânica influencia características como coloração, aroma e sabor do mel, permitindo a produção de variedades associadas a diferentes floradas e regiões.

Segundo a Secretaria da Agricultura Familiar do Piauí (SAF), aproximadamente 93% do mel produzido no estado possui certificação orgânica. A elevada participação desse tipo de produção está relacionada, entre outros fatores, à presença de vegetação nativa e às condições ambientais das áreas produtoras.

Entretanto, a certificação depende do cumprimento de normas específicas de produção, manejo, rastreabilidade e controle, não sendo determinada apenas pela origem natural das floradas.

O mel piauiense atravessa fronteiras

A produção estadual também possui importância no comércio internacional.

Dados do comércio exterior brasileiro analisados em estudo publicado em 2026 apontam que o Piauí exportou aproximadamente 6,6 mil toneladas de mel em 2025, com receita de US$ 21,7 milhões.

Os Estados Unidos foram o principal destino, concentrando cerca de 90,7% do valor exportado. Reino Unido, Canadá e Alemanha também aparecem entre os mercados compradores.

A presença internacional representa uma oportunidade econômica, mas a concentração das exportações em poucos destinos torna a atividade sensível a mudanças tarifárias, exigências sanitárias e oscilações de mercado.

Para ampliar a competitividade, especialistas destacam a importância da certificação, da rastreabilidade, do beneficiamento adequado e da diversificação dos compradores.

Abelhas também ajudam a preservar a biodiversidade

A importância da apicultura ultrapassa a produção de mel. As abelhas desempenham papel fundamental na polinização de inúmeras espécies vegetais, contribuindo para a reprodução das plantas, a formação de frutos e a manutenção dos ecossistemas.

No Piauí, a preservação da Caatinga e do Cerrado está diretamente relacionada à disponibilidade de recursos florais para as colônias.

O desmatamento, as queimadas, a aplicação inadequada de agrotóxicos e as alterações no regime de chuvas representam desafios para a manutenção dos enxames e a sustentabilidade da atividade.

A meliponicultura, criação racional de abelhas nativas sem ferrão, também apresenta potencial para conservação ambiental, educação e geração de renda, respeitadas as exigências legais e as particularidades biológicas de cada espécie.

Agricultura familiar e novos desafios

A Secretaria da Agricultura Familiar desenvolve iniciativas de apoio à cadeia apícola, incluindo distribuição de equipamentos, estruturação de casas de mel, capacitações e ações voltadas à recuperação da vegetação.

Uma pesquisa da Embrapa Meio-Norte, publicada em 2026, destaca que o crescimento da produção precisa ser acompanhado por políticas de adaptação climática, assistência técnica, conservação do pasto apícola e agregação de valor aos produtos.

Entre os desafios estão ampliar o acesso de pequenos produtores ao mercado, melhorar as condições de beneficiamento e incentivar a comercialização de produtos com identidade territorial.

A diversificação também abre possibilidades para novos negócios, com produtos derivados do mel, própolis, cera e outras matérias-primas da atividade apícola.

Aos 204 anos de sua adesão à Independência, o Piauí encontra na apicultura uma atividade que reúne tradição rural, biodiversidade, ciência e empreendedorismo.

Das pequenas propriedades do semiárido aos mercados internacionais, o mel piauiense demonstra que preservar a natureza e desenvolver atividades econômicas podem ser objetivos complementares.

Em cada florada, existe uma oportunidade de produção. Em cada colmeia, um trabalho que depende do equilíbrio ambiental. E, por trás de cada safra, estão famílias que ajudam a construir a economia e a identidade do Piauí.

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