
O eleitor brasileiro tem adiado a escolha de seus candidatos e deve definir o voto mais perto do dia da eleição, principalmente nas disputas para deputado federal e estadual. A avaliação é do cientista político e professor associado da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Vitor Sandes, para quem a campanha ainda atravessa uma fase inicial, marcada pela apresentação dos nomes e das propostas ao eleitorado.
Segundo o especialista, a complexidade das eleições brasileiras contribui para a decisão tardia. Em uma mesma votação, o eleitor precisa escolher representantes para a Presidência da República, governo estadual, Senado, Câmara dos Deputados e Assembleia Legislativa.
Outro fator é o curto período destinado à campanha. São 45 dias de disputa oficial, com aproximadamente 35 dias de propaganda eleitoral no rádio e na televisão. Na prática, conforme analisa Sandes, a campanha ganha maior intensidade somente no final de agosto.
O comportamento do eleitor também mudou. O acesso mais amplo à informação por meio da internet e dos smartphones permite acompanhar candidatos, comparar propostas e reagir aos acontecimentos da campanha. Ao mesmo tempo, a desconfiança em relação à classe política torna o processo de escolha mais cauteloso.
Para Vitor Sandes, parte do eleitorado está menos vinculada a posições ideológicas rígidas e mais interessada em propostas capazes de produzir efeitos concretos no cotidiano, especialmente em áreas como segurança pública, saúde, emprego e prestação de serviços. Esse pragmatismo, segundo ele, não deve ser classificado de maneira automática como positivo ou negativo.
A busca por resultados pode ser compreendida entre eleitores que dependem diretamente da atuação do Estado. As ideias e os posicionamentos políticos, no entanto, continuam sendo fundamentais para diferenciar os candidatos e orientar escolhas mais conscientes.
Os políticos que já exercem mandato entram na disputa com vantagem sobre os adversários. Governadores, presidentes, parlamentares e outros ocupantes de cargos públicos podem apresentar obras, programas e resultados alcançados durante a gestão.
No caso dos integrantes do Poder Legislativo, Sandes destaca o acesso aos recursos do orçamento por meio das emendas parlamentares. A destinação de verbas aos municípios amplia a presença política dos detentores de mandato e pode ser convertida em apoio eleitoral, dificultando a competição para candidatos que ainda não ocupam cargos públicos.
Apesar das condições institucionais da disputa, práticas como a disseminação de desinformação, a compra de votos e o uso abusivo do poder econômico comprometem a qualidade do processo democrático. A democracia depende da autonomia do eleitor para comparar propostas e tomar decisões com o mínimo possível de interferências indevidas.
Nesse cenário, a atuação da Justiça Eleitoral é considerada fundamental para fiscalizar a campanha, combater irregularidades e garantir condições mais equilibradas entre candidatos e partidos.
Em relação às propostas de reforma política, Vitor Sandes avalia que o voto distrital não deve ser apresentado como uma solução definitiva para os problemas do sistema brasileiro. Dependendo do modelo adotado, a mudança pode reduzir a diversidade da representação e dificultar o acesso de grupos com menor poder econômico aos espaços de decisão.
O cientista político ressalta que o aperfeiçoamento da democracia não depende apenas da forma de votação. Mudanças recentes, como o fim das coligações nas eleições proporcionais e a criação das cláusulas de desempenho, já produziram efeitos sobre o sistema partidário brasileiro, considerado anteriormente um dos mais fragmentados do mundo.
O fim das coligações proporcionais reduziu o número de partidos, fortaleceu legendas médias e grandes e levou siglas menores a buscar fusões ou federações. Para Sandes, essas alterações podem contribuir para tornar o sistema mais organizado e compreensível para o eleitor.
As reformas, contudo, precisam ser construídas de maneira gradual, com tempo para avaliação dos resultados e diálogo entre representantes políticos e a sociedade. Mais do que atender aos interesses da classe política, as mudanças devem facilitar a participação do cidadão e fortalecer a democracia.
