Dos primeiros anos ao comércio: Parque Piauí acompanha transformação de Teresina

No dia em que Teresina completa 174 anos, neste domingo (16), a história da capital também pode ser contada pela memória de quem acompanhou a transformação de seus bairros. No Parque Piauí, zona Sul, Gerson Pereira Leal, de 71 anos, viu uma região praticamente sem infraestrutura se transformar, ao longo de mais de cinco décadas, em um importante polo comercial e de serviços da cidade.

Morador do Parque Piauí há 54 anos, Gerson chegou ao bairro em 1972, aos 17 anos. Naquela época, encontrou uma realidade muito diferente da atual. Segundo ele, não havia água encanada, energia elétrica, transporte público, posto de saúde ou calçamento.

“Quando cheguei aqui, em 1972, não tinha água, não tinha luz, não tinha transporte, não tinha posto de saúde e não tinha calçamento. Era tudo muito difícil”, relembra.

Uma das maiores dificuldades era conseguir água própria para o consumo. A água retirada dos poços era salgada e, segundo o morador, as famílias precisavam percorrer cerca de três quilômetros para buscar água potável no Rio Parnaíba.

“A água dos poços era salgada. Para conseguir água boa para beber, a gente tinha que buscar no Rio Parnaíba. Hoje, quando conto essas histórias, muita gente nova nem acredita”, afirma.

A região ainda conservava características rurais. Gerson recorda relatos sobre a presença de animais selvagens, inclusive onças, nas proximidades dos caminhos utilizados pelos moradores. O medo fazia parte da rotina de quem precisava se deslocar para outras regiões da cidade.

“Naquele tempo, a gente tinha horário para voltar. Havia histórias de onça na região. Era uma realidade completamente diferente da que existe hoje”, conta.

O Parque Piauí começou a ser implantado em maio de 1967 e foi inaugurado em setembro de 1968. Quando Gerson chegou, apenas quatro anos depois da inauguração, o bairro ainda estava em processo de consolidação. Desde então, ele acompanhou a chegada da infraestrutura e o avanço da urbanização da zona Sul.

Com o passar das décadas, o antigo conjunto predominantemente residencial ganhou uma dinâmica econômica própria. Casas deram lugar a lojas, farmácias, supermercados, escritórios e outros estabelecimentos, principalmente nas grandes avenidas.

“Hoje nós temos tudo aqui. O morador só vai ao Centro se quiser. Temos comércio, serviços, temos até cartório. O Parque Piauí se tornou praticamente independente”, destaca Gerson.

A mudança também alterou a ocupação do bairro. Segundo os números citados por ele durante a entrevista, o Parque Piauí, que já teria alcançado cerca de 20 mil moradores, possui atualmente 13.947 habitantes. Na avaliação do antigo morador, a redução está ligada, entre outros fatores, à transformação de residências em estabelecimentos comerciais.

“Nas avenidas, principalmente, muitas casas foram vendidas e viraram comércio. Isso valorizou bastante os imóveis, mas também fez diminuir o número de pessoas morando aqui”, avalia.

Para Gerson, o processo tende a avançar. Ele acredita que, dentro de alguns anos, haverá ainda mais comércio e menos residências em determinadas áreas.

“O bairro vai melhorar ainda mais, mas acredito que daqui a dez anos teremos muito mais comércio. Minha preocupação é que ele acabe ficando parecido com o Centro, com cada vez menos residências”, afirma.

Gerson acompanhou essas mudanças de um lugar que se tornou também ponto de encontro da comunidade: sua barbearia.

Ele começou a trabalhar como barbeiro aos 13 anos, seguindo os passos do pai, que exerceu a profissão durante mais de 60 anos. No Parque Piauí, a cadeira de barbeiro virou uma espécie de janela para acompanhar a passagem do tempo.

“Meu pai foi barbeiro por mais de 60 anos e eu comecei muito cedo, aos 13. Aqui a gente escuta muita história. Tem coisa que conto hoje e os mais jovens acham que não aconteceu, porque o Parque Piauí mudou demais”, relata.

Ao longo de mais de cinco décadas, Gerson viu crianças crescerem, famílias se formarem e diferentes gerações passarem por sua barbearia. Paralelamente, acompanhou o bairro receber infraestrutura, ampliar o comércio e ganhar importância dentro da zona Sul de Teresina.

Apesar do desenvolvimento, ele considera que ainda existem problemas que precisam ser enfrentados. Um dos principais é a saúde.

Segundo Gerson, a mudança do perfil do hospital do Parque Piauí para o atendimento infantil deixou uma lacuna para os moradores adultos, que passaram a procurar outras unidades, como a UPA do Promorar, em determinadas situações.

“A população sente falta do atendimento que tinha antes. Hoje o adulto precisa procurar outros lugares. Nós queremos que essa situação seja revista, porque o bairro tem uma população que precisa desse atendimento”, cobra.

Outra reivindicação é a reforma do mercado público. Para Gerson, a estrutura não acompanhou a transformação econômica da região e precisa receber melhorias.

“O mercado precisa urgentemente de uma reforma. É um espaço importante para o Parque Piauí e precisa acompanhar o crescimento que o bairro teve”, afirma.

O trânsito também preocupa. O aumento do comércio trouxe maior circulação de veículos para uma região originalmente planejada com perfil predominantemente residencial. Gerson considera insuficiente a sinalização existente e cobra intervenções.

“O bairro cresceu muito, o movimento aumentou, mas a sinalização não acompanhou esse crescimento. Temos poucos semáforos para o tamanho e o movimento que o Parque Piauí tem hoje”, diz.

A segurança pública aparece entre os desafios apontados pelo morador. Embora reconheça a atuação policial, ele afirma que episódios de violência preocupam a comunidade.

A relação de Gerson com o Parque Piauí ultrapassou a vida profissional e familiar. Ele presidiu a Associação de Moradores por vários mandatos e continua participando das mobilizações comunitárias.

Entre as questões atualmente acompanhadas está a reivindicação relacionada ao seguro habitacional das antigas casas da Cohab. Moradores buscam a devolução de valores que, segundo a mobilização, teriam sido incluídos nas prestações dos imóveis.

A associação também prepara uma programação para comemorar os 58 anos do Parque Piauí, em 18 de setembro, reunindo moradores e resgatando parte da história da comunidade.

Para Gerson, porém, a ligação com o bairro é antes de tudo afetiva.

Ele chegou do interior ainda adolescente pensando que talvez um dia retornasse. Acabou ficando. Foi no Parque Piauí que se casou, construiu sua família e viu chegarem filhos, netos e bisnetos.

“Eu vim pensando que um dia poderia voltar para o interior, mas o Parque Piauí me prendeu. Aqui eu me casei, criei minha família, tenho meus filhos, meus netos e meus bisnetos. Tenho orgulho de morar aqui e não penso em sair”, afirma.

No aniversário de 174 anos de Teresina, a trajetória de Gerson ajuda a revelar uma parte da capital que não está apenas nos monumentos ou grandes obras. Está também na memória dos moradores que chegaram quando quase tudo ainda precisava ser construído.

Em 54 anos, ele viu o Parque Piauí passar da falta de água, luz, transporte e calçamento para a condição de importante centro comercial da zona Sul. Viu casas se transformarem em lojas, ruas ganharem movimento e gerações inteiras nascerem onde antes havia uma comunidade ainda em formação.

A cidade mudou diante dos seus olhos. Gerson permaneceu.

E, entre histórias contadas na cadeira de sua barbearia, sua própria vida acabou se confundindo com a história do Parque Piauí e com a transformação de Teresina.

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