Debate da Band expõe choque entre candidatos ao Governo do Piauí sobre saúde, emprego, segurança e privatizações

Primeiro confronto televisionado das eleições de 2026 reuniu Rafael Fonteles, Joel Rodrigues, Lúcia Santos, Gisvaldo Oliveira e Gustavo Henrique; gestão estadual, abastecimento de água, geração de empregos e alianças políticas dominaram os embates

O primeiro debate entre candidatos ao Governo do Piauí nas eleições de 2026 colocou frente a frente, na noite deste domingo (9), cinco concorrentes ao Palácio de Karnak e antecipou os principais campos de disputa da campanha. Saúde pública, geração de empregos, segurança, abastecimento de água, carga tributária, privatizações e ética na política estiveram no centro dos confrontos promovidos pela Band Piauí.

Participaram Rafael Fonteles (PT), atual governador e candidato à reeleição; Joel Rodrigues (Progressistas), ex-prefeito de Floriano; Dra. Lúcia Santos (PSDB), médica e dirigente sindical; Gisvaldo Oliveira (PSOL), professor, historiador e sindicalista; e Gustavo Henrique (Avante), servidor público e bacharel em Direito.

O debate começou às 20h e apresentou dois movimentos claros. De um lado, Rafael Fonteles defendeu os resultados da atual gestão e a continuidade dos programas do governo. Do outro, os adversários concentraram críticas principalmente na saúde, na geração de empregos, na política de abastecimento de água, na concessão dos serviços de saneamento e na situação econômica do estado. Os embates também avançaram para questões ambientais, direitos da população trans, regularização fundiária e alianças políticas.

Na saúde, um dos temas mais recorrentes da noite, Lúcia Santos e Gisvaldo Oliveira fizeram críticas ao modelo de administração de unidades públicas por organizações sociais. Lúcia afirmou que o Estado estaria enfraquecendo mecanismos de controle social e defendeu uma gestão mais técnica do SUS. Gisvaldo foi além e sustentou que hospitais regionais deveriam voltar à administração direta do poder público.

Rafael Fonteles defendeu o modelo adotado pelo governo e argumentou que a avaliação deve considerar a qualidade dos serviços prestados aos usuários do SUS. Citou unidades como a Maternidade Dona Evangelina Rosa e o Hospital do Mocambinho ao defender a gestão mediante metas e acompanhamento dos resultados.

A economia também produziu um dos principais contrapontos da noite. Joel Rodrigues afirmou que o Piauí ainda enfrenta dificuldades para manter jovens no estado por falta de oportunidades e defendeu redução da carga tributária, estímulo às cadeias produtivas e presença maior do governo nos territórios.

Rafael respondeu destacando o chamado “Pacto pela Economia”, com incentivo ao empreendedorismo, qualificação profissional, infraestrutura, acesso ao crédito e atração de investimentos. Segundo ele, a estratégia contempla setores como agroindústria, agricultura familiar, agronegócio, mineração, turismo, economia criativa e economia digital.

“Nosso foco principal é o empreendedorismo”, defendeu o governador, ao sustentar que micro, pequenas e médias empresas são fundamentais para ampliar as oportunidades de trabalho e renda.

Joel contestou os números apresentados pelo adversário e afirmou que parte da população ainda não percebe os resultados anunciados pelo governo. Para o candidato do Progressistas, o estado precisa transformar suas vocações produtivas em empregos efetivos.

O ex-prefeito de Floriano também protagonizou um dos momentos mais duros ao abordar o abastecimento de água. Citou municípios e comunidades que ainda dependem de carros-pipa e questionou os investimentos realizados pelo governo estadual.

Joel criticou ainda a concessão dos serviços anteriormente operados pela Agespisa e prometeu rever o contrato caso seja eleito. Para ele, garantir água nas torneiras deve anteceder outras intervenções de saneamento.

Gisvaldo Oliveira também atacou o processo de concessão e defendeu a manutenção dos serviços essenciais sob controle público. O candidato do PSOL colocou as privatizações no centro de sua crítica ao governo Fonteles e apresentou sua candidatura como alternativa à política econômica adotada pelo Estado.

Na segurança pública, Rafael Fonteles afirmou que sua gestão ampliou investimentos, nomeou novos policiais e fortaleceu integração e inteligência das forças de segurança. Caso seja reeleito, prometeu continuar aumentando efetivo, orçamento e capacidade operacional.

O governador defendeu uma combinação entre repressão ao crime e políticas preventivas voltadas principalmente para a juventude, com educação, cultura, esporte e oportunidades profissionais.

Gisvaldo apresentou uma visão diferente para a segurança. Ao responder sobre esporte, defendeu investimentos em quadras, bibliotecas, centros culturais e atividades nas periferias como instrumentos de prevenção da violência. Também criticou políticas que, segundo ele, criminalizam principalmente jovens negros, pobres e moradores das periferias.

Lúcia Santos relacionou violência, educação e ausência de oportunidades. A candidata criticou os índices educacionais do estado e afirmou que o poder público precisa enfrentar de forma integrada a evasão escolar, o analfabetismo e a entrada de jovens na criminalidade.

Na educação, Gustavo Henrique defendeu como prioridade a valorização dos servidores, especialmente professores da Universidade Estadual do Piauí (Uespi). Propôs recomposição salarial, ganho real e maior equilíbrio entre as remunerações das diferentes categorias estaduais.

Gustavo também transformou a ética na política em uma das principais bandeiras de sua participação. Em diferentes momentos, direcionou questionamentos a Joel Rodrigues sobre sua relação política com o senador Ciro Nogueira e mencionou investigações atribuídas a autoridades federais. As referências feitas pelo candidato durante o debate foram apresentadas como acusações políticas e não tiveram seu mérito analisado no programa.

Joel defendeu a aliança com Ciro Nogueira, afirmou que o senador trabalha pelo Piauí e respondeu que sua trajetória política é baseada no que classificou como missão de cuidar das pessoas. Também destacou realizações de sua administração em Floriano.

O confronto entre os dois aumentou de temperatura quando Gustavo passou a questionar a trajetória eleitoral e as alianças do adversário. Joel rejeitou as acusações e voltou sua resposta para problemas que considera prioritários no estado, sobretudo filas na saúde, estrutura dos hospitais e abastecimento de água.

Outro embate importante ocorreu entre Rafael Fonteles e Gisvaldo Oliveira sobre regularização fundiária e desenvolvimento econômico.

Gisvaldo acusou o atual modelo de desenvolvimento de favorecer a concentração de terras e apontou conflitos envolvendo avanço do agronegócio, comunidades tradicionais e impactos ambientais. Defendeu maior prioridade para agricultura familiar, indígenas, quilombolas e pequenos produtores.

Rafael argumentou que agronegócio e agricultura familiar podem avançar simultaneamente e afirmou que sua administração priorizou a regularização fundiária. Segundo o governador, quase 100 mil registros e títulos foram entregues envolvendo assentamentos, comunidades quilombolas e áreas urbanas.

Gisvaldo contestou o cenário apresentado e mencionou comunidades que, segundo ele, continuam enfrentando conflitos territoriais e pressão decorrente do avanço das atividades econômicas.

Os direitos da população trans também entraram no debate. Questionado por Gisvaldo, Rafael afirmou que pretende manter políticas de proteção e enfrentamento à violência, ampliar centros de referência e fortalecer estruturas específicas dentro da administração estadual.

Gisvaldo cobrou uma posição mais enfática do governador diante de medidas aprovadas em Teresina que considera discriminatórias contra pessoas trans. “Mulheres trans são mulheres e ponto final”, afirmou o candidato do PSOL ao defender políticas de inclusão.

Já Lúcia Santos buscou consolidar sua candidatura em torno do discurso de administração técnica. Médica e presidente do Sindicato dos Médicos do Piauí, concentrou críticas na saúde e afirmou existir uma distância entre o Piauí apresentado pela propaganda institucional e a realidade vivenciada pela população.

Ao falar sobre mobilidade urbana, classificou a situação como grave e associou as dificuldades de transporte ao uso intenso de motocicletas e aos acidentes de trânsito. Defendeu uma atuação conjunta entre Estado e municípios.

No agronegócio, Lúcia cobrou redução da carga tributária, infraestrutura e melhoria dos serviços essenciais. Também criticou problemas no fornecimento de água e energia e os impactos dessas deficiências sobre atividades econômicas, inclusive o turismo.

Disputa pelo Avante chegou ao debate

A participação de Gustavo Henrique ocorreu em meio a uma disputa interna no Avante no Piauí. Duas convenções partidárias apresentaram encaminhamentos diferentes: uma lançou Gustavo Henrique ao Governo do Estado e outra aprovou apoio a Elizeu Aguiar, do Novo.

A situação chegou à Justiça Eleitoral e interferiu diretamente na composição do debate. Por decisão judicial, Gustavo Henrique participou do programa como representante do Avante, enquanto a presença do Novo ficou condicionada à definição jurídica sobre a situação partidária e da coligação.

Considerações finais reforçam estratégias de campanha

Nos minutos finais, os cinco candidatos sintetizaram os discursos que devem marcar a campanha.

Gustavo Henrique voltou a defender ética e transparência e encerrou sua participação com uma referência pessoal ao filho João Gabriel, autista.

Joel Rodrigues direcionou sua mensagem às famílias que enfrentam problemas relacionados a saúde, abastecimento de água, emprego, alimentação e educação. Disse que pretende ser um “empregado das pessoas” caso seja eleito governador.

Gisvaldo Oliveira apresentou o PSOL como uma alternativa à política de privatizações e afirmou que pretende construir um projeto estadual mais próximo da classe trabalhadora.

Lúcia Santos retomou a contraposição entre o que chamou de “Piauí da propaganda” e “Piauí da realidade”. Pediu que os eleitores pesquisem a trajetória dos candidatos e defendeu uma administração técnica.

Rafael Fonteles encerrou defendendo o trabalho realizado desde que assumiu o governo, em 2023. Citou planejamento, inovação, educação e presença nos 224 municípios piauienses e reafirmou sua proximidade política com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Com o primeiro grande confronto televisionado da campanha, a eleição para o Governo do Piauí começa a ganhar contornos mais definidos. Rafael tenta transformar os resultados da administração em argumento pela continuidade. Joel aposta no contraponto entre os indicadores oficiais e as dificuldades enfrentadas pela população. Lúcia concentra fogo na saúde e na gestão técnica. Gisvaldo apresenta uma oposição pela esquerda ao modelo econômico e às privatizações. Gustavo busca ocupar o espaço do discurso de ética, valorização do funcionalismo e crítica às alianças tradicionais.

Se o primeiro debate serviu como termômetro, a campanha de 2026 tende a ser marcada menos por diferenças superficiais e mais por uma disputa direta sobre duas questões centrais: qual é o Piauí que os números mostram e qual é o Piauí que a população encontra quando precisa de emprego, água, segurança, escola ou atendimento de saúde.

MAIS NOTÍCIAS

+LIDAS DA SEMANA