Iphan paralisa obras na Central de Artesanato após reconhecimento de sítio arqueológico

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) determinou a paralisação das obras de reforma da Central de Artesanato Mestre Dezinho, no Centro de Teresina, após o espaço conhecido como “Porão da Ditadura” passar a ser reconhecido como sítio arqueológico. A decisão impede novas intervenções na área até a conclusão dos estudos técnicos e o cumprimento dos procedimentos exigidos pela legislação de proteção ao patrimônio cultural.

Com o novo enquadramento, o espaço subterrâneo passa a exigir tratamento especializado. Qualquer obra ou alteração deverá considerar a preservação dos vestígios existentes, com documentação técnica e acompanhamento arqueológico. A medida busca evitar que possíveis evidências históricas sejam destruídas ou modificadas durante a reforma.

A paralisação ocorre após pesquisadores da Universidade Federal do Piauí (UFPI) identificarem elementos que ampliaram a relevância histórica e científica do local. Entre os achados estão marcas nas superfícies do ambiente e manchas orgânicas invisíveis a olho nu, reveladas com o uso de luz ultravioleta.

Foto: UFPI.

Os pesquisadores levantam a possibilidade de que parte dessas manchas corresponda a resíduos de sangue. A hipótese, no entanto, ainda não foi confirmada. A próxima etapa da investigação prevê a coleta de amostras e a realização de análises laboratoriais para determinar a origem do material.

Diante dos indícios, a preservação do espaço tornou-se fundamental para a continuidade da pesquisa. A avaliação é de que intervenções arquitetônicas realizadas antes da conclusão dos estudos poderiam comprometer vestígios com possível valor histórico e probatório.

A investigação é realizada por uma equipe do Laboratório de Osteoarqueologia da UFPI (LOA/UFPI), sob coordenação da bioarqueóloga e professora Claudia Cunha. O estudo concentra-se em um cômodo subterrâneo acessado por alçapão e possivelmente relacionado a práticas de repressão durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985.

Durante o levantamento, os pesquisadores analisaram elementos arquitetônicos como escadas em granilite, paredes revestidas com marmorite e piso de ladrilho hidráulico. As características são compatíveis com construções institucionais brasileiras das décadas de 1940 a 1970.

O trabalho reúne métodos da Arqueologia Histórica, da Arqueologia Forense e da Bioarqueologia. Segundo Claudia Cunha, este é o primeiro estudo realizado no Piauí voltado à investigação de um possível espaço associado à repressão violenta durante o regime militar.

Além das evidências materiais, os pesquisadores consideram registros históricos e depoimentos que relacionam o antigo prédio a prisões arbitrárias, violência e tortura. A existência de eventuais resíduos de sangue, contudo, só poderá ser confirmada após os exames laboratoriais.

 

A equipe técnica defende que o ambiente seja mantido preservado até a conclusão das análises. O objetivo é impedir a perda de informações que possam contribuir para a reconstrução histórica dos acontecimentos ocorridos no imóvel.

O prédio onde funciona atualmente a Central de Artesanato Mestre Dezinho possui uma trajetória iniciada ainda no século XIX. Construído durante o processo de transferência da capital do Piauí de Oeiras para Teresina, entre 1844 e 1852, o imóvel abrigou o Estabelecimento de Educandos Artífices do Piauí.

Posteriormente, o edifício funcionou por mais de um século como Quartel do Comando Geral da Polícia Militar do Piauí. Segundo registros históricos e depoimentos, durante a ditadura militar o local teria sido utilizado para detenções políticas e estaria associado a práticas de repressão e tortura.

Com a paralisação determinada pelo Iphan, a continuidade das obras fica condicionada aos estudos e aos procedimentos de preservação do patrimônio. Os registros produzidos pela equipe da UFPI também deverão subsidiar novas pesquisas sobre a memória da ditadura militar e os direitos humanos no Piauí.

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