
Aos 174 anos, Teresina encontra no coração da própria cidade um dos seus maiores desafios urbanos. O Centro, que durante décadas concentrou comércio, serviços, cultura e parte importante da vida social da capital, convive hoje com lojas fechadas, casarões deteriorados, imóveis sem uso, sujeira e sensação de insegurança em trechos que perderam movimento.
Há uma contradição histórica nessa paisagem. Fundada em 16 de agosto de 1852, Teresina nasceu planejada para ser capital, com um traçado urbano organizado para abrigar a nova sede administrativa da então Província do Piauí. É apontada como uma das primeiras capitais brasileiras planejadas em moldes modernos. Quase dois séculos depois, justamente a região que materializou esse projeto original enfrenta esvaziamento, abandono de imóveis e perda de parte de sua paisagem arquitetônica.
É nesse contraste entre a cidade planejada de 1852 e o Centro esvaziado de 2026 que ganha novo significado uma palavra criada há mais de meio século pelo poeta e letrista piauiense Torquato Neto: “Tristeresina”. A expressão aparece no texto Vir ver ou vir, escrito em 1972, e atravessou o tempo como uma das imagens mais marcantes construídas pelo poeta sobre sua cidade natal.

Hoje, a palavra permite outra leitura. A “Tristeresina” contemporânea aparece nas portas cerradas, nas fachadas deterioradas e nas construções que sobreviveram ao tempo, mas perderam moradores, comércio e função urbana.
Parte desses imóveis é formada por casas antigas, algumas centenárias, que passaram de geração em geração. Há propriedades que permanecem fechadas em meio a inventários, divisão entre numerosos herdeiros ou disputas judiciais. Em outros casos, recuperar construções antigas exige investimentos elevados, enquanto compradores e locatários se tornam mais difíceis de encontrar.
O abandono produz consequências que ultrapassam a preservação arquitetônica. Imóveis vazios e sem vigilância acabam vulneráveis a invasões e podem ser utilizados para consumo de drogas, além de acumular lixo e sujeira. Comerciantes também relatam preocupação com furtos e arrombamentos de estabelecimentos, especialmente em áreas que ficam praticamente desertas depois do encerramento do expediente.

Esses relatos precisam ser confrontados com registros das forças de segurança para dimensionar quantos furtos, roubos, arrombamentos e ocorrências envolvendo drogas são registrados atualmente na região central. Ainda assim, para quem permanece trabalhando no Centro, a perda de circulação de pessoas é apontada como um dos fatores que aumentam a percepção de vulnerabilidade.

O problema dos imóveis vazios já foi dimensionado pelo poder público. Em 2024, um levantamento da Secretaria de Segurança Pública do Piauí identificou 217 imóveis abandonados na região central de Teresina.

Uma cidade que mudou de endereço
O esvaziamento não ocorreu de uma vez. Teresina cresceu para outras regiões, novos corredores comerciais foram consolidados, shoppings passaram a concentrar parte do consumo e repartições e serviços migraram para outros bairros. Ao mesmo tempo, problemas relacionados ao transporte público, estacionamento, segurança e conservação urbana passaram a pesar sobre a capacidade de atração do Centro.
O resultado é uma mudança profunda na dinâmica urbana. Há ruas ainda movimentadas durante o horário comercial que perdem grande parte da circulação no fim da tarde. Menos moradores significam também menos pessoas nas ruas à noite e nos fins de semana.
Forma-se, então, um ciclo difícil de romper: o imóvel fecha, a rua perde movimento, aumenta a sensação de insegurança, consumidores se afastam e outros estabelecimentos encontram mais dificuldade para permanecer funcionando.
E o prejuízo não é somente econômico. O Centro guarda parte fundamental da memória arquitetônica e afetiva de Teresina. Casarões, igrejas, praças, mercados e prédios públicos ajudam a contar como a capital cresceu desde o século XIX. Quando um casarão centenário permanece abandonado até se deteriorar, a cidade não perde apenas paredes e telhados. Perde parte da própria história.
O futuro pode passar pela moradia
Uma das alternativas discutidas para recuperar áreas centrais é justamente trazer moradores de volta ao Centro. Uma região ocupada quase exclusivamente durante o expediente tende a esvaziar à noite. Com população residente, cresce a demanda permanente por supermercados, farmácias, restaurantes, escolas, serviços e espaços de convivência.
Em Teresina, iniciativas habitacionais destinadas à área central apontam nessa direção. Mas recuperar o Centro exige muito mais que reformar fachadas.
Habitação, transporte público, segurança, iluminação, limpeza urbana, preservação do patrimônio, incentivo ao comércio e utilização dos imóveis ociosos precisam fazer parte da mesma política.
Há ainda um obstáculo silencioso atrás de muitas portas fechadas: a situação jurídica dos imóveis herdados. Propriedades divididas entre vários herdeiros ou envolvidas em inventários e disputas podem permanecer durante anos sem utilização e sem manutenção. Encontrar mecanismos legais e urbanísticos para devolver função a esses imóveis é parte do desafio.
Também é preciso evitar que revitalizar signifique simplesmente expulsar quem ainda mantém o Centro vivo. Pequenos comerciantes, trabalhadores informais, moradores antigos e atividades populares precisam integrar qualquer projeto de recuperação.
O Centro não precisa voltar a ser exatamente aquilo que foi. Precisa descobrir aquilo que ainda pode ser.
Há ainda outra imagem da literatura piauiense que ajuda a compreender esse processo de transformação urbana. O poeta H. Dobal, em A cidade substituída, voltou seu olhar para a descaracterização da paisagem arquitetônica de São Luís, no Maranhão, registrando poeticamente o desaparecimento de referências urbanas diante das mudanças da cidade.
A ideia da “cidade substituída” encontra eco no Centro de Teresina. Aqui, casarões desaparecem, são descaracterizados ou permanecem fechados enquanto a paisagem construída por gerações vai sendo modificada. Em alguns pontos, há uma contradição ainda mais profunda: o antigo se perde sem que algo novo ocupe verdadeiramente o seu lugar.
Assim, H. Dobal e Torquato Neto oferecem, cada um à sua maneira, duas imagens literárias que ajudam a olhar para a Teresina de hoje: a cidade substituída e a Tristeresina.
Enquanto casarões centenários permanecem fechados, imóveis acumulam abandono e sujeira e comerciantes convivem com o medo de novos arrombamentos, o Centro revela uma cidade que parece ter se afastado de parte da própria história.
Mais de meio século depois de Torquato Neto escrever “Tristeresina”, a palavra encontra um significado inesperadamente atual.
