
Antes das avenidas, dos prédios e dos bairros que hoje se espalham pela cidade, havia um largo, uma igreja em construção e o projeto de erguer uma nova capital. Aos 174 anos, celebrados neste domingo (16), voltar ao nascimento de Teresina também significa revisitar versões que se consolidaram no imaginário popular sobre onde e por que a cidade surgiu.
O professor titular do Departamento de História da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Ricardo Arraes, chama atenção para o papel do antigo Largo do Amparo, atual região da Praça Marechal Deodoro, a Praça da Bandeira, na organização inicial da capital. A formação acadêmica e a atuação do historiador na UFPI são confirmadas pelos registros da universidade.
Segundo Arraes, aquele foi o primeiro grande espaço aberto em torno do qual a nova cidade começou a ganhar forma.
A importância da área é respaldada por estudos da própria UFPI. Pesquisas apontam que a Igreja de Nossa Senhora do Amparo serviu de referência para a demarcação territorial e para o plano de construção da nova capital. Em frente à igreja foi estabelecido o primeiro logradouro público da cidade.

A história começa antes de 1852
José Antônio Saraiva chegou ao Piauí em 1850 para assumir a presidência da Província. A transferência da capital já era discutida anteriormente, mas foi durante sua administração que o projeto avançou até se concretizar.
Oeiras, primeira capital piauiense, enfrentava limitações de localização e comunicação. Para Arraes, a escolha da nova sede administrativa precisava considerar a possibilidade de integração e circulação, especialmente pela proximidade com um curso d’água.
A nova capital foi instalada às margens do rio Parnaíba. A transferência foi oficializada em 1852, quando a Vila Nova do Poti passou a sediar a administração provincial e recebeu o nome de Teresina. Documentos e pesquisas históricas da UFPI confirmam que a mudança foi resultado de um processo político conduzido por Saraiva e apoiado por lideranças da Vila do Poti.
Uma cidade desenhada a partir da Igreja do Amparo
A Igreja de Nossa Senhora do Amparo ocupa posição central nessa história. A pedra fundamental foi lançada em 1850, e o templo tornou-se uma das principais referências para a organização espacial da cidade que começava a nascer.
Ao redor dela foram sendo instalados prédios públicos, espaços administrativos, comércio e residências. Estudos sobre a formação urbana de Teresina apontam que a região concentrava funções religiosas, políticas, comerciais e de circulação, tornando-se o coração da cidade nascente.
Por isso, Arraes chama atenção para uma distinção entre a ideia popular de um ponto isolado como origem de Teresina e o processo urbano efetivamente ocorrido. Mais do que uma marca no chão, o nascimento da capital deve ser compreendido a partir daquele conjunto formado pelo templo, pelo largo e pelas primeiras instituições públicas.
É também nesse ponto que a história ajuda a relativizar outra narrativa repetida sobre a fundação da capital.
Arraes contesta a versão de que Teresina teria sido instalada essencialmente para impedir um suposto avanço territorial de Caxias, no Maranhão. Para o historiador, a relação entre as duas regiões deve ser compreendida sobretudo no campo econômico.
A localização junto ao Parnaíba favorecia comunicação, circulação de mercadorias e conexão com outras áreas da província. A mudança de Oeiras para a nova capital, portanto, fazia parte de uma transformação administrativa e econômica mais ampla.
Pesquisas acadêmicas sobre o período mostram que diferentes localidades chegaram a ser discutidas como possíveis destinos da capital, entre elas Parnaíba, São Gonçalo e a própria Vila Nova do Poti, até a definição que resultou na criação de Teresina.

De um pequeno núcleo à Cidade Verde
O crescimento foi rápido. Menos de uma década depois da transferência, registros históricos citados em pesquisa da UFPI indicam que, em 1861, Teresina já possuía 963 casas e mais de oito mil habitantes. A cidade planejada para exercer funções administrativas começava a desenvolver uma vida urbana própria.
Vieram o comércio, novas instituições, ruas, praças e diferentes grupos sociais. Também surgiram problemas que acompanhariam o crescimento urbano, como precariedade de infraestrutura, lixo e desigualdades entre as construções mais sólidas e as moradias frágeis da população pobre.
Ao longo das décadas, Teresina ganhou ainda uma de suas denominações mais conhecidas: Cidade Verde. Ricardo Arraes situa a origem dessa associação no fim do século XIX, quando a paisagem arborizada começou a aparecer em descrições da capital.
A cidade que nasceu ao redor do Amparo, entretanto, avançou muito além daquele traçado inicial.
Neste domingo, 174 anos depois de sua fundação, a Igreja de Nossa Senhora do Amparo voltou a receber a tradicional celebração pelo aniversário da capital.
O simbolismo atravessa o tempo
Em 1850, aquele entorno ajudava a desenhar uma cidade que ainda não existia oficialmente. Em 1852, a nova capital se tornaria realidade. Hoje, cercada pelo movimento do Centro de Teresina, a igreja permanece como testemunha de uma transformação que atravessou quase dois séculos.
Conhecer essa história também significa compreender que cidades não nascem prontas.
Teresina nasceu de decisões políticas, interesses econômicos, condições geográficas e das pessoas que começaram a ocupar suas primeiras ruas.
Antes de existir a metrópole, existiu o Largo do Amparo. E foi dali que Teresina começou a caminhar.
