
Teresina completa 174 anos neste domingo (16) olhando para a própria história e, ao mesmo tempo, para desafios que acompanham uma capital em permanente transformação. A programação de aniversário teve entre seus momentos simbólicos a missa celebrada na Igreja de Nossa Senhora do Amparo, no Centro, região diretamente ligada ao nascimento da cidade e que hoje concentra parte das discussões sobre patrimônio, mobilidade, segurança, moradia e revitalização urbana.
Fundada em 16 de agosto de 1852, Teresina nasceu de uma decisão política: a transferência da capital da então província do Piauí de Oeiras para a Vila Nova do Poti. Planejada para exercer a função de capital, a cidade cresceu às margens dos rios Parnaíba e Poti e avançou muito além dos limites imaginados no século XIX.

Durante as comemorações, o prefeito Sílvio Mendes afirmou que Teresina permanece uma cidade em construção.
“É uma cidade construída a muitas mãos”, destacou, ao lembrar que a capital nasceu pequena e atravessou sucessivas transformações até alcançar a dimensão atual.
Para o professor Ricardo Arraes, do Departamento de História da Universidade Federal do Piauí (UFPI), compreender esse nascimento exige voltar ao entorno da Igreja do Amparo. Segundo ele, o primeiro grande espaço aberto e estruturador da nova capital foi o Largo do Amparo, área que posteriormente passou a ser conhecida como Praça da Bandeira.
Arraes explica que José Antônio Saraiva chegou ao Piauí em 1850 e conduziu durante aproximadamente dois anos o processo que resultaria na transferência da capital. Oeiras enfrentava limitações geográficas e de comunicação, e a escolha da nova sede buscava aproximar o centro político da província de uma importante via fluvial.
Mais de um século e meio depois, o mesmo Centro que testemunhou o nascimento de Teresina enfrenta um dos maiores desafios da capital: recuperar sua capacidade de reunir moradores, comércio, serviços, cultura e circulação de pessoas.
O futuro passa novamente pelo Centro
A revitalização da região central aparece entre as prioridades apresentadas pela administração municipal para os próximos anos. O superintendente da SDU Centro-Norte, Eulálio Campelo, afirma que diferentes frentes estão sendo conduzidas simultaneamente.

Entre elas está a reforma do Mercado Central, em estágio avançado, com previsão de conclusão até o final do ano. Feirantes que trabalhavam nas ruas também estão sendo realocados para espaços considerados mais adequados.
A prefeitura ainda trabalha na recuperação de praças, manutenção dos calçadões e implantação de paisagismo em vias como as ruas Coelho Rodrigues e Simplício Mendes.
Segundo Campelo, desde 2025 o Centro também começou a registrar novos investimentos privados, com chegada ou retorno de supermercados, academias, estabelecimentos de alimentação, escolas e outros empreendimentos. Projetos residenciais também começaram a chegar para análise, impulsionados por mecanismos de incentivo à ocupação da região central.
A tentativa de trazer moradores de volta ao Centro é considerada uma peça importante dessa transformação. O Governo do Estado também possui projeto habitacional para a região da Praça Saraiva, enquanto o município trabalha na criação de uma nova estrutura destinada a centenas de trabalhadores do comércio informal.
Para Sílvio Mendes, revitalizar o Centro exige justamente devolver diferentes funções à região, incluindo comércio, habitação e circulação.
O prefeito também apontou outros desafios estruturais de Teresina. Entre eles estão o transporte coletivo, a mobilidade urbana e o déficit habitacional, estimado por ele em cerca de 35 mil moradias.
Na área do transporte, Mendes anunciou que novas medidas deverão ser apresentadas, incluindo a previsão de aproximadamente 150 novos ônibus e a atualização do planejamento do sistema. Também citou a intenção de construir uma nova ponte na região do Pesquerinho para melhorar o acesso à Grande Santa Maria da Codipi.
A segurança pública municipal é outro setor que deverá passar por expansão. O secretário municipal de Segurança Pública, coronel Wagner Torres, informou que a gestão pretende realizar concurso para 300 novos guardas municipais. Segundo ele, a ampliação permitirá reforçar a presença da instituição em equipamentos públicos e criar serviços como o motopatrulhamento, além de fortalecer a Guarda Maria da Penha.

Uma cidade é também responsabilidade de quem vive nela
Durante a celebração religiosa, o padre Amadeu Matias trouxe para o aniversário uma reflexão que ultrapassa obras e indicadores. Para ele, celebrar Teresina significa também lembrar que uma cidade precisa oferecer condições dignas de saúde, educação, segurança e convivência.
O sacerdote destacou problemas sentidos diariamente pela população, como dificuldades na coleta de lixo e no transporte coletivo, e defendeu que a Igreja acompanhe essas questões sem pretender substituir o poder público.
Segundo ele, cabe à Igreja cooperar, dialogar e ser uma “instância ética”, especialmente na defesa daqueles que encontram maior dificuldade para serem ouvidos.
A própria questão habitacional deverá receber atenção da Igreja no Piauí. A partir de uma cooperação envolvendo a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o Governo Federal, recursos da Campanha da Fraternidade e contribuições dos fiéis deverão ajudar em projetos-piloto de melhoria habitacional.
Para o padre Amadeu, porém, a responsabilidade pelas políticas públicas continua pertencendo ao Estado. A participação religiosa deve ocorrer como acompanhamento e cooperação em defesa da dignidade humana.
A reflexão encontra eco no desafio lançado pelo prefeito aos próprios moradores. Sílvio Mendes defendeu que o aniversário não seja apenas uma ocasião para perguntar o que Teresina oferece aos seus habitantes, mas também para refletir sobre aquilo que cada cidadão entrega à cidade.
Entre os exemplos, citou o descarte irregular de lixo e a necessidade de educação e responsabilidade coletiva para conservar os espaços urbanos.
Aos 174 anos, Teresina chega ao aniversário carregando os contrastes próprios de uma capital que cresceu muito além do pequeno núcleo erguido no século XIX. É referência na educação, concentra serviços para grande parte do Piauí e continua atraindo população, investimentos e demandas. Ao mesmo tempo, enfrenta dificuldades no transporte coletivo, déficit habitacional, pressão sobre os serviços públicos e o desafio de devolver vitalidade ao seu núcleo histórico.
Do Largo do Amparo de 1852 à metrópole que atravessa os rios e se espalha por diferentes zonas, quase tudo mudou.
A Igreja do Amparo, porém, permanece.
Diante dela começou a se desenhar uma capital. Neste 16 de agosto, o mesmo lugar volta a reunir autoridades, religiosos e moradores para celebrar o que Teresina se tornou.
E talvez os 174 anos tragam uma pergunta mais importante do que qualquer comemoração: que Teresina será construída pelas próximas gerações?
