O Piauí registrou 1,7 milhão de hectares atingidos pelo fogo em 2025, tornando-se o terceiro estado brasileiro com maior área queimada, atrás apenas de Maranhão e Tocantins. O dado faz parte do Relatório Anual do Fogo (RAF 2025), divulgado pela iniciativa MapBiomas Fogo, e revela um aumento de 25% em relação ao ano anterior — o segundo maior crescimento proporcional do país, atrás apenas de São Paulo.
O levantamento reforça a preocupação com os impactos ambientais e econômicos das queimadas, especialmente em um estado que abriga importantes áreas de Caatinga e Cerrado e possui uma das maiores cadeias produtivas de mel do Brasil.
O município de Uruçuí, no sul do estado, aparece entre os mais afetados, com cerca de 195 mil hectares queimados ao longo do ano. A região concentra parte significativa da produção agrícola do Piauí e está inserida em uma das áreas de maior ocorrência de incêndios florestais.
Os dados do MapBiomas mostram que, embora o Brasil tenha registrado uma redução de 58% na área total queimada em 2025 em comparação com o ano anterior, o cenário piauiense seguiu na direção oposta, evidenciando um agravamento local do problema.
Especialistas apontam que o avanço das queimadas está relacionado à combinação de estiagem prolongada, altas temperaturas, baixa umidade do ar e ações humanas. No Cerrado, bioma predominante em parte do território piauiense, o fogo tem origem, em grande parte, em atividades agropecuárias e no manejo inadequado do solo.
Os impactos vão além da perda da cobertura vegetal. A destruição da vegetação compromete a biodiversidade, reduz a capacidade de regeneração dos ecossistemas, afeta a qualidade do solo e contribui para o aumento das emissões de gases de efeito estufa. A fumaça também provoca problemas respiratórios e reduz a qualidade de vida da população.
Outro setor diretamente atingido é a apicultura. A redução das áreas de vegetação nativa diminui a oferta de flores que fornecem néctar e pólen para as abelhas, provocando queda na produção de mel, migração de enxames e prejuízos para milhares de apicultores piauienses.
A situação ganha relevância justamente no momento em que o Governo do Estado e a Agência Francesa de Desenvolvimento anunciaram investimentos para fortalecer a conservação ambiental por meio do Programa Piauí Verde e Sustentável. A iniciativa prevê a revitalização de unidades de conservação e a proteção de cerca de 1,2 milhão de hectares de áreas protegidas, buscando conciliar preservação da biodiversidade, turismo sustentável e desenvolvimento econômico.
O próprio Plano Anual de Ações Integradas de Prevenção, Controle e Combate aos Incêndios Florestais do Piauí (PAIF-PI) identifica o Cerrado como o bioma mais afetado pelas queimadas no estado e destaca a necessidade de ampliar ações de prevenção, monitoramento e combate aos incêndios, especialmente nas regiões mais vulneráveis.
O Relatório Anual do Fogo é elaborado pelo MapBiomas a partir da análise de imagens dos satélites Landsat processadas com técnicas de aprendizado de máquina. O monitoramento permite acompanhar a evolução das áreas queimadas em todo o território nacional desde 1985 e fornece informações para subsidiar políticas públicas de prevenção e conservação ambiental.
Os números reforçam que o combate às queimadas deixou de ser apenas uma questão ambiental. No Piauí, preservar a vegetação significa proteger a biodiversidade, garantir a produção agrícola, fortalecer a apicultura e reduzir os impactos das mudanças climáticas sobre a economia e a população.

