Mulheres que fizeram história no Piauí desafiaram o silêncio e abriram caminhos

Esperança Garcia, a escravizada que escreveu uma petição ao governador

A história do Piauí também foi construída por mulheres que enfrentaram a escravidão, desafiaram as convenções sociais e participaram de movimentos de resistência política e cultural. Neste 19 de outubro, quando o estado celebra 204 anos de sua adesão à Independência do Brasil, recuperar essas trajetórias significa reconhecer uma parte da memória piauiense que nem sempre recebeu o mesmo espaço dedicado aos personagens masculinos.

Entre essas mulheres está Esperança Garcia, uma mulher negra escravizada que, em 1770, escreveu uma carta ao governador da então Capitania do Piauí denunciando violências, castigos físicos e a separação de sua família. O documento é considerado um dos primeiros registros de reivindicação de direitos por escrito no Brasil.

A carta, datada de 6 de setembro de 1770, foi encontrada pelo historiador Luiz Mott em 1979, no Arquivo Público do Piauí. O documento revelou a atuação de uma mulher que, mesmo submetida à escravidão, utilizou a escrita para denunciar injustiças e reivindicar proteção.

Em 2017, a Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Piauí, reconheceu simbolicamente Esperança Garcia como a primeira advogada piauiense. Em 2022, o Conselho Federal da OAB ampliou esse reconhecimento, concedendo-lhe o título simbólico de primeira advogada do Brasil.

A trajetória de Esperança Garcia antecede em mais de meio século o movimento de Independência do Piauí, mas integra a história das lutas por direitos e dignidade no território piauiense.

A participação feminina na Independência

Durante os movimentos de emancipação política do Brasil, entre 1822 e 1823, as mulheres também participaram das mobilizações que alcançaram o Piauí.

Na Batalha do Jenipapo, travada em 13 de março de 1823, em Campo Maior, a resistência contra as tropas portuguesas reuniu diferentes setores da população. A Secretaria das Mulheres do Piauí reconhece a participação feminina nesse processo, embora a documentação histórica disponível não permita identificar com a mesma precisão todas as mulheres envolvidas.

A presença feminina nas lutas pela Independência também se manifestou em outras regiões do Brasil, por meio de articulações políticas, apoio aos combatentes, produção de textos e participação direta em confrontos.

O reconhecimento dessas contribuições amplia a compreensão de um processo histórico frequentemente narrado a partir de comandantes militares e lideranças políticas.

O desafio de preservar a memória das mulheres

A ausência de registros sobre a participação feminina não se limita ao período colonial. Pesquisas acadêmicas apontam dificuldades na preservação de documentos sobre mulheres que participaram de movimentos políticos e sociais no Piauí.

Um estudo publicado em 2024 na revista científica History of Education in Latin America identificou problemas na organização e conservação de arquivos relacionados à participação de mulheres piauienses na resistência à ditadura militar.

Segundo as pesquisadoras, a escassez de documentos compromete a reconstrução dessas trajetórias e dificulta o reconhecimento público de suas contribuições.

A questão revela um desafio que atravessa diferentes períodos da história: preservar documentos, testemunhos e experiências de mulheres que participaram das transformações da sociedade.

Estátua na OAB em homenagem à Esperança Garcia, 1ª advogada do Brasil.

Uma história que continua sendo escrita

O reconhecimento de Esperança Garcia demonstra como a pesquisa histórica pode modificar a maneira como uma sociedade compreende seu passado.

Sua trajetória, durante muito tempo pouco conhecida fora dos círculos acadêmicos, passou a integrar homenagens institucionais, produções literárias e iniciativas educacionais. Em Teresina, uma estátua inaugurada em 2025 na sede da OAB Piauí mantém viva sua memória.

Ao celebrar 204 anos da adesão à Independência, o Piauí também encontra a oportunidade de reconhecer mulheres que contribuíram para sua formação social, política e cultural.

Resgatar essas histórias não significa apenas homenagear personagens do passado, mas compreender que a construção da identidade piauiense também passou pelas mãos, pelas palavras e pela resistência de mulheres cujas trajetórias ainda precisam ser pesquisadas e conhecidas.

MAIS NOTÍCIAS

+LIDAS DA SEMANA