
O jurista, filósofo e professor João Maurício Leitão Adeodato, um dos principais nomes da Filosofia do Direito no Brasil, faleceu nesta terça-feira (19), deixando uma trajetória marcada pela contribuição acadêmica e pela formação de gerações de pesquisadores em todo o país.
No Piauí, Adeodato é lembrado especialmente por sua atuação decisiva na consolidação de um programa de mestrado jurídico realizado em parceria entre instituições piauienses e pernambucanas.
A presidente da Academia Piauiense de Letras Jurídicas, Fides Angélica Ommati, destacou que João Maurício teve papel fundamental na implantação do curso, contribuindo diretamente para a articulação acadêmica do projeto e para a participação de professores responsáveis pelas arguições das dissertações.
“Perdemos um dos maiores intelectuais do Direito brasileiro e um amigo muito querido. João Maurício foi essencial para que aquele mestrado se tornasse realidade. Sua generosidade acadêmica e seu compromisso com a formação jurídica deixaram marcas profundas no Piauí”, afirmou.
O acadêmico e primeiro secretário da APLJ, Marcelino Barroso, também lamentou a morte do jurista e relembrou a convivência construída desde os tempos de pós-graduação na Faculdade de Direito do Recife.
Segundo Marcelino, os dois ingressaram juntos no mestrado da instituição em 1978. Ainda no primeiro ano, Adeodato transferiu-se para a Universidade de São Paulo (USP), onde concluiu o doutorado e posteriormente seguiu para o pós-doutorado na Alemanha.
“Lamento muito a morte prematura de João Maurício Leitão Adeodato, meu colega no Mestrado da Faculdade de Direito do Recife. Fizemos parte da pesquisa ‘Um Direito Vivo’, em Água Branca, Alagoas, experiência acadêmica que resultou em importante publicação da Editora da UFPE. João Maurício sempre demonstrou uma inteligência rara, profunda dedicação ao pensamento jurídico e enorme generosidade intelectual”, declarou.
Marcelino Barroso também destacou a participação decisiva do professor na estruturação do primeiro mestrado em Direito do Piauí, articulado a partir da Escola Superior de Advocacia da OAB-PI.
“A iniciativa do primeiro mestrado em Direito do Piauí nasceu da professora Fides Angélica Ommati, com apoio imediato da UFPI para a parceria interinstitucional com a UFPE. Participei diretamente da elaboração desse projeto, e João Maurício contribuiu decisivamente para seu sucesso. Hoje, muitos mestres daquela turma integram o corpo docente da UFPI e alguns também honram esta Academia Piauiense de Letras Jurídicas. O legado deixado por esse grande jurista honra a cultura jurídica brasileira”, afirmou.
Reconhecido internacionalmente por seus estudos sobre retórica jurídica, Adeodato defendia uma compreensão do Direito baseada na linguagem, na argumentação e na construção democrática dos consensos. Sua produção intelectual influenciou pesquisadores, magistrados, advogados e professores em diversas universidades brasileiras.
Natural de Belo Horizonte e criado em Olinda, o professor construiu grande parte de sua carreira acadêmica na Faculdade de Direito do Recife, vinculada à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde atuou durante décadas como professor titular. Doutor e livre-docente pela USP, também realizou pós-doutorado na Universidade de Mainz, na Alemanha, além de estudos em universidades como Heidelberg, Freiburg e Frankfurt.
Ao longo da carreira, tornou-se o primeiro brasileiro a integrar o comitê executivo da Associação Internacional de Filosofia Jurídica e Social (IVR) e alcançou o nível máximo de pesquisador do CNPq. Entre suas obras mais conhecidas estão Ética e Retórica e Filosofia do Direito, referências em cursos jurídicos de todo o país.
A morte do professor repercutiu entre autoridades e instituições acadêmicas brasileiras. O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, afirmou que o legado intelectual e humano de Adeodato seguirá como referência para futuras gerações da comunidade jurídica.
