
A mama-cadela, cientificamente conhecida como *Brosimum gaudichaudii*, está emergindo como uma das frutas nativas mais promissoras do Cerrado brasileiro, atraindo o interesse de pesquisadores. Com seu tamanho reduzido, casca que varia do amarelo ao alaranjado e polpa doce e fibrosa, a fruta é apelidada de “chicletinho do Cerrado” devido à sua consistência.
Apesar de seu notável valor nutricional, a mama-cadela ainda é pouco conhecida e consumida pela população, mesmo em regiões próximas ao bioma onde é encontrada naturalmente. A fruta, que também é conhecida por nomes populares como mamica-de-cadela e mururerana, ocorre em estados como Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Bahia, São Paulo e Paraná. Seu diâmetro de aproximadamente dois centímetros e sabor adocicado a diferenciam da pitanga, com a qual é frequentemente comparada em tamanho.
Estudos recentes, como a pesquisa conduzida pela nutricionista Grazieli Pascoal, professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), durante seu pós-doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, têm desvendado o perfil nutricional da mama-cadela.
A investigação revelou uma concentração significativa de compostos bioativos, carotenoides e fibras na fruta. Estes componentes não apenas atuam como nutrientes essenciais, mas também como poderosos antioxidantes para o organismo. “A mama-cadela pode trazer vários benefícios em uma alimentação saudável, especialmente em relação à quantidade de vitamina A e fibra alimentar”, destaca Pascoal.
Os resultados indicam que uma porção de seis unidades da fruta pode suprir mais de 60% da necessidade diária de vitamina A, um patamar comparável ao da cenoura, e que também auxilia na absorção de ferro e fortalece as defesas antioxidantes do corpo.
Além do alto teor de vitamina A, outras pesquisas, incluindo trabalhos da Universidade de São Paulo, apontam para a presença de quantidades expressivas de fibras, essenciais para o bom funcionamento intestinal, e para atividade antifúngica, demonstrando capacidade de inibir o crescimento de *Candida albicans*.
A mama-cadela possui uma longa história de uso medicinal tradicional no Cerrado, com comunidades locais utilizando suas folhas, ramos, casca e raiz para preparar chás e cataplasmas. No entanto, é importante ressaltar que compostos encontrados na raiz, como psoralenos e bergaptenos, possuem ação fotossensibilizante e seu uso inadequado pode levar a sérias lesões cutâneas, motivo pelo qual especialistas alertam contra o uso autônomo dessas partes da planta.
O foco das pesquisas atuais está no fruto, visando seu consumo seguro e alimentar. A crescente popularidade de alimentos ultraprocessados no Brasil, em detrimento do consumo de frutas e vegetais in natura, tem sido motivo de preocupação para especialistas em saúde pública, associada ao aumento de doenças crônicas. “Nossa alimentação está muito monótona”, lamenta Pascoal, defendendo o resgate de frutos nativos como a mama-cadela para diversificar a dieta brasileira.
Para que a mama-cadela se torne mais presente no cardápio nacional, é fundamental, segundo Pascoal, que seu valor nutricional seja amplamente reconhecido. A pesquisadora participa do desenvolvimento da Tabela de Composição de Alimentos Regionais e da Biodiversidade Brasileira, um projeto que visa catalogar espécies nativas como essa.
Com o investimento em pesquisas e a implementação de políticas que promovam a biodiversidade alimentar, a mama-cadela tem o potencial de conquistar seu espaço na dieta do país, contribuindo para a saúde da população e para a sustentabilidade rural. “É fundamental resgatar os saberes sobre essas plantas e a riqueza do nosso bioma”, conclui Pascoal.

Com informações de: Jornal da USP.
