
Durante décadas, histórias sobre um cervo-do-pantanal de pelagem escura circularam entre os moradores da região, um animal que se tornou quase uma figura mítica. Agora, a ciência valida esses relatos: pesquisadores registraram pela primeira vez casos de melanismo na espécie (Blastocerus dichotomus), uma condição genética que confere aos animais uma coloração significativamente mais escura.
A descoberta, fruto de uma colaboração entre a Onçafari e Walfrido Tomas, da Embrapa Pantanal, foi publicada na revista científica Notas sobre Mamíferos Sudamericanos. Embora o albinismo e o leucismo em cervos já fossem conhecidos, a documentação científica de um indivíduo melânico era inédita. O
primeiro registro ocorreu em 26 de fevereiro de 2021, em Mato Grosso do Sul, com uma fêmea adulta fotografada, embora não tenha sido vista novamente na área. Essa constatação ganha peso, considerando que a espécie é estudada há cerca de 40 anos no Pantanal sem que essa característica fosse documentada na literatura científica.
Contudo, a existência de áreas como a Baía do Cervo Preto no Mato Grosso já indicava que os pantaneiros conheciam esses animais há muito tempo.
A pesquisa se expandiu e revelou que o fenômeno não se limita ao Pantanal. Desde 2022, armadilhas fotográficas instaladas no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, no Cerrado, entre Minas Gerais e Bahia, capturaram três cervos melânicos em meio a mais de 61 mil registros. Observações diretas entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026 confirmaram a presença desses animais em áreas alagadiças e próximas a fontes de água, indicando que a característica melânica ocorre em outra população da espécie.

O melanismo é causado por uma produção excessiva de melanina, o pigmento que determina a cor da pele e dos pelos. Em contraste com a pelagem normalmente castanho-avermelhada do cervo-do-pantanal, os indivíduos melânicos apresentam tons corporais muito escuros. A ocorrência dessa anomalia pigmentar em diferentes populações de uma mesma espécie é incomum e desperta o interesse dos cientistas.
Agora, os pesquisadores buscam entender as causas genéticas e as possíveis adaptações desses animais. No Cerrado, onde o cervo-do-pantanal é considerado raro, o isolamento populacional pode ser um fator, mas estudos genéticos são necessários para confirmar essa hipótese.
A influência da pelagem escura na termorregulação e nas interações ambientais também está sob investigação, sem evidências claras de vantagem ou desvantagem até o momento.
A descoberta é especialmente relevante, pois o cervo-do-pantanal é o maior cervídeo da América do Sul, e o Pantanal abriga cerca de 88% da população brasileira da espécie, estimada em 40 mil indivíduos. Esses achados abrem novas perspectivas para a genética e a conservação deste animal, confirmando a base real para as antigas histórias pantaneiras.
Com informações de: PORTAL-IG
