Grande Sertão: Veredas, 70 anos de um marco literário universal

Clássico de Guimarães Rosa continua a despertar leituras e debates

Um dos pilares da literatura brasileira, “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, completa sete décadas de sua publicação em 2023, mantendo sua força e capacidade de inspirar leitores e especialistas. Eduardo Giannetti, professor, economista e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), descreve a obra como um dos trabalhos mais audaciosos e inovadores do país.

Segundo ele, o livro exibe um “apuro formal inexcedível”, fruto de uma entrega criativa intensa de Rosa, que chegou a descrever seu processo como algo quase mediúnico. Giannetti ressalta a combinação única de pesquisa linguística meticulosa com uma “possessão” criativa, citando a famosa frase de Rosa: “De repente, o diabo me cavalga”, como a essência desse fenômeno criativo.

A genialidade de Guimarães Rosa se manifestou na produção paralela de “Grande Sertão: Veredas” e “Corpo de Baile”, uma coleção de novelas, entre 1946 e 1956. Ambas as obras foram finalizadas e lançadas simultaneamente em 1956, após terem sido iniciadas em Paris e Bogotá, e continuadas no Rio de Janeiro a partir de 1951.

O jornalista Leonêncio Nossa, autor da primeira biografia de Rosa, explica que “Grande Sertão” originou-se de uma história originalmente pensada para “Corpo de Baile”, que o autor desmembrou para transformá-lo em um romance independente. A inspiração para a obra surgiu de uma viagem de Rosa pelo interior de Minas Gerais com o amigo Pedro Barbosa Moreira, explorando a região de Veredas, ambiente que se tornou central na narrativa.

O processo criativo de Rosa, que levou dez anos para concluir “Grande Sertão”, espelha o tempo dedicado por Leonêncio Nossa à pesquisa para a biografia “João Guimarães Rosa”. Nossa descreve a vida do escritor como agitada e repleta de desafios, marcada por um projeto literário desde a infância.

A biografia revela detalhes inéditos, como a inclusão de nomes de pessoas conhecidas por Rosa em seus personagens, conferindo um caráter autobiográfico à obra. Sua imersão criativa era complementada pela audição de programas de rádio com cantoras populares e pela inspiração de filmes como “Os Sete Samurais”.

A obra, lançada em 16 de julho de 1956 na Livraria José Olímpio, no Rio de Janeiro, enfrentou críticas pela linguagem inovadora, que, para muitos, parecia “de outro planeta”, mas que, na verdade, retratava a fala autêntica do interior do Brasil. A musicalidade e a riqueza do linguajar, mesmo gerando debates sobre neologismos, cativaram o público, mantendo o livro entre os mais vendidos desde seu lançamento e sendo considerado uma leitura obrigatória e transformadora.

O escritor João Guimarães Rosa deu a personagens de Grande Sertão: Veredas, nomes de pessoas do seu conhecimento – Divulgação/ Centro Cultural São Paulo

Com informações de: AGBR

MAIS NOTÍCIAS

+LIDAS DA SEMANA