
A inteligência artificial não deu origem à desinformação, mas ampliou sua velocidade, seu alcance e sua capacidade de influenciar o eleitor. A avaliação é do procurador da República e procurador regional eleitoral substituto no Piauí, Israel Gonçalves Santos Silva, durante o encontro “Eleições na Era da Inteligência Artificial”, promovido nesta sexta-feira (21) pela Academia Piauiense de Letras Jurídicas (APLJ), na sede da OAB-PI, em Teresina.
“A inteligência artificial não criou a mentira, mas potencializou a sua difusão. Hoje, uma informação falsa consegue alcançar um número muito maior de pessoas e em uma velocidade que não existia há alguns anos”, afirmou Israel.
Segundo o procurador, a propaganda política deixou de depender dos horários reservados no rádio e na televisão. Com os celulares, as redes sociais e os algoritmos, as mensagens eleitorais passaram a alcançar o cidadão a qualquer momento e em qualquer lugar.
“Antigamente, a comunicação política de massa estava concentrada no rádio e na televisão, dentro de horários determinados. Agora, ela está em todos os lugares. A mensagem chega ao eleitor pelo telefone, mesmo quando ele não está procurando conteúdo político”, explicou.
Além de permanente, a comunicação tornou-se personalizada. Os sistemas conseguem identificar preferências religiosas, esportivas, políticas e filosóficas para apresentar conteúdos elaborados de acordo com os interesses de cada grupo.
“A inteligência artificial consegue conhecer os vieses que a pessoa já possui e trabalhar em cima deles. É possível apresentar uma mensagem religiosa para um eleitor, uma mensagem esportiva para outro e uma abordagem filosófica para um terceiro. O discurso é moldado para romper a resistência inicial e facilitar a persuasão”, declarou.
Para Israel, essa capacidade pode ser utilizada para confirmar crenças, fortalecer preconceitos e influenciar comportamentos. Uma mesma candidatura pode apresentar discursos diferentes para públicos distintos, criando uma sensação artificial de identificação com cada eleitor.
O procurador ressaltou que a inteligência artificial não é essencialmente negativa. A ferramenta pode reduzir custos de campanha, especialmente na produção de vídeos, imagens, computação gráfica e outros materiais de comunicação.
“A inteligência artificial não é boa nem má por natureza. Tudo depende da motivação e do uso que se faz dela. Ela pode baratear uma campanha e permitir produções que antes exigiam muito dinheiro”, ponderou.
O risco está na utilização da tecnologia para simular a realidade com elevado grau de verossimilhança. Segundo Israel, os conteúdos produzidos artificialmente podem provocar dois efeitos igualmente perigosos.
“A IA pode fazer alguém acreditar em um fato que nunca existiu, mas também pode levar a pessoa a deixar de acreditar em um fato verdadeiro. Esse talvez seja um dos maiores desafios que teremos pela frente”, alertou.
Esse ambiente de dúvida amplia a dificuldade de proteger a liberdade de escolha do eleitor. A desinformação não precisa apenas convencer alguém de uma mentira. Ela também pode destruir a confiança nas informações verdadeiras e criar a percepção de que todo conteúdo pode ter sido manipulado.
Israel avaliou que as primeiras normas da Justiça Eleitoral sobre inteligência artificial representam um ponto de partida e precisarão ser aperfeiçoadas com base nas situações registradas durante as campanhas.
“As normas são inaugurais. A prática eleitoral vai mostrar as lacunas, os problemas e os casos concretos que ainda não conseguimos prever. A partir disso, será possível amadurecer a regulamentação para as eleições seguintes”, disse.
Segundo o procurador, esperar a eliminação completa das fake news é uma perspectiva irrealista. O objetivo deve ser reduzir sua circulação e seus efeitos sobre a integridade do processo democrático.
“Não vamos acabar completamente com as fake news, assim como a sociedade não conseguiu acabar com o crime. O que precisamos é reduzir esse problema a patamares civilizados e impedir que ele comprometa a liberdade do voto”, afirmou.
Israel comparou esse amadurecimento ao ocorrido com as pesquisas eleitorais. No passado, segundo ele, elas também foram utilizadas como instrumentos de desinformação e manipulação. Com o avanço da regulamentação, passaram a exigir registro, transparência e divulgação de informações sobre a metodologia aplicada.
O procurador defendeu que a responsabilidade pelo combate às notícias falsas não recaia somente sobre o Ministério Público e a Justiça Eleitoral.
“Essa luta não é apenas do Ministério Público ou do Judiciário. Os candidatos, os partidos políticos e a sociedade civil também precisam participar. A sociedade tem um papel importante ao denunciar e ao buscar informações confiáveis”, declarou.
O enfrentamento torna-se mais difícil em aplicativos privados, como WhatsApp e Telegram, onde as mensagens circulam em grupos fechados. Em redes públicas, o conteúdo pode ser localizado e preservado com maior facilidade.
“No Instagram ou no X, a publicação está exposta e pode ser identificada. No WhatsApp e no Telegram, a circulação acontece de maneira privada. Esse é um limite natural à capacidade de fiscalização e à própria eficácia das normas”, explicou.
Ao citar um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT, Israel afirmou que notícias falsas podem circular até seis vezes mais rapidamente do que informações verdadeiras. Segundo ele, isso acontece porque os conteúdos enganosos são construídos para parecer novos, urgentes e merecedores de compartilhamento imediato.
“A fake news é elaborada para despertar uma reação. Ela precisa parecer nova, urgente e importante. A pessoa acredita que deve compartilhar rapidamente, antes mesmo de conferir se aquilo é verdadeiro”, observou.
O procurador também chamou atenção para a utilização da desinformação sobre eleitores indecisos. Mensagens manipuladas podem explorar o receio de “perder o voto” e induzir o cidadão a apoiar quem aparentemente lidera uma disputa.
“Existe uma engenharia social por trás dessas mensagens. O eleitor indeciso muitas vezes não quer perder o voto e tende a escolher quem acredita estar na frente. A desinformação trabalha sobre esse estado mental para influenciar a decisão”, afirmou.
Para Israel, o desafio é estabelecer uma regulamentação proporcional: rigorosa o suficiente para impedir abusos, mas sem proibir os usos legítimos da tecnologia.
“A inteligência artificial pode ser utilizada nas campanhas, desde que seja compatível com eleições justas e equilibradas. Precisamos encontrar esse ponto de equilíbrio entre inovação, liberdade política e proteção do processo democrático”, concluiu.
