
A delegada aposentada Vilma Alves morreu neste sábado (22), aos 79 anos, em Teresina, após permanecer internada desde terça-feira (18), quando sofreu um infarto. A informação foi confirmada pela família. Primeira mulher a ingressar na Polícia Civil do Piauí e primeira delegada negra do estado, ela deixa uma trajetória marcada pelo pioneirismo e pela defesa das vítimas de violência.
Vilma passou a vida abrindo portas. Abriu as da Polícia Civil para mulheres que ainda não ocupavam aquele espaço. Abriu as da delegacia para vítimas que chegavam com medo, feridas no corpo ou atingidas por dores que não apareciam nos exames. Também abriu caminho para uma nova forma de acolher, ouvir e proteger.
Foram 36 anos de atuação como delegada e quase cinco décadas dedicadas à segurança pública. Em uma instituição ainda predominantemente masculina, ocupou postos de comando, tornou-se a primeira corregedora-geral da Polícia Civil do Piauí e esteve à frente da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher em Teresina.
Ao anunciar a aposentadoria, em 2021, Vilma resumiu o próprio legado em uma frase: “Abri as portas para as mulheres entrarem na polícia”. A afirmação não era apenas simbólica. Mulher negra, mãe e servidora pública, ela enfrentou o preconceito dentro e fora da corporação e ajudou outras mulheres a ocuparem espaços antes reservados aos homens.
A defesa feminina começou ainda na década de 1970, quando o Brasil praticamente não possuía instrumentos específicos para enfrentar a violência doméstica. No Piauí, a primeira Delegacia da Mulher foi instalada somente em 1989. Vilma acompanhou essa transformação desde o início e ajudou a consolidar o atendimento especializado no estado.
Uma história contada por ela revela muito sobre sua maneira de trabalhar. Ao recordar o começo da carreira, afirmou: “A primeira mulher que defendi como delegada foi uma prostituta da Rua Paissandu”. A vítima estava sendo submetida a um tratamento humilhante durante uma abordagem policial. Vilma assumiu o atendimento, ouviu a mulher e preservou sua dignidade.
O episódio tornou-se uma espécie de síntese de sua atuação. Para Vilma Alves, proteção não poderia depender da profissão, da origem social, da orientação sexual ou da influência da vítima. As portas da delegacia precisavam estar abertas também para quem, durante muito tempo, foi ignorado ou maltratado pelo próprio Estado.
Como corregedora-geral, enfrentou abusos cometidos dentro da instituição. Na Delegacia da Mulher, bateu de frente com agressores influentes e acompanhou casos envolvendo companheiros, maridos, filhos e outros familiares das vítimas. Sua firmeza rendeu reconhecimento, mas também ameaças, pressões e processos.
A atuação de Vilma não se limitava aos gabinetes. Ela percorria escolas, universidades, comunidades e até canteiros de obras para falar sobre respeito, machismo e violência doméstica. Defendia que a repressão aos agressores era necessária, mas acreditava que somente a educação poderia alterar uma cultura que, durante gerações, tratou a mulher como propriedade.
A delegada também lutou pela melhoria das estruturas de atendimento. Entre as conquistas que mais valorizava estava uma sede adequada para a Delegacia da Mulher, com ambiente mais acolhedor e até brinquedoteca para os filhos das vítimas. Para ela, denunciar era apenas o primeiro passo de um processo que deveria devolver segurança e dignidade à mulher.
Mesmo depois da aposentadoria, continuou participando de debates públicos e defendendo punições rigorosas para crimes de gênero. Em uma de suas últimas entrevistas, ao recordar as dificuldades enfrentadas, declarou: “Já fui processada, sofri muito, ameaçada, mas sempre tive consciência de que meu papel era defender a mulher”.
Vilma Alves também sonhava transformar a própria trajetória em livro. Queria registrar a história da mulher negra, mãe e servidora pública que atravessou preconceitos e alcançou o posto mais alto da carreira sem abandonar aqueles que procuravam ajuda.
A morte encerra uma vida, mas não fecha as portas que Vilma abriu. Seu legado permanece nas mulheres que hoje integram a Polícia Civil, nas estruturas de proteção que ajudou a fortalecer e em cada vítima que encontrou coragem para denunciar porque sabia que seria ouvida.
