Vera Lacerda: a professora que usou o carnaval para transformar vidas na periferia

A professora e historiadora baiana Vera Lacerda, de 79 anos, lembra, em detalhes, os sentimentos que fizeram com que ela criasse, em março de 1980, o bloco e também o instituto Ara Ketu

Aos 79 anos, a historiadora baiana Vera Lacerda relembra com clareza os motivos que a impulsionaram a fundar o bloco e o instituto Ara Ketu em março de 1980, na comunidade de Periperi, em Salvador. Ao lado de seu primo, o falecido Augusto César, Vera concebeu o projeto para além da música e do carnaval, visando um impacto social significativo. Essa jornada foi compartilhada por ela em um debate no Festival Latinidades, em Brasília, na última sexta-feira (3).

O nome Ara Ketu é uma homenagem à cidade de Ketu, no Benim, um dos principais pontos de origem do tráfico de pessoas escravizadas para o Brasil. A motivação central de Vera Lacerda para a criação do bloco era o profundo inconformismo com as desigualdades sociais presentes no subúrbio ferroviário de Salvador.

Como professora de história e mestre em filosofia, ela identificou na música uma poderosa ferramenta de transformação e inclusão. “Minha luta era tirar os meninos do tráfico de drogas e da marginalidade. Eu consegui muito”, declarou Vera à Agência Brasil, orgulhosa de ter possibilitado a capacitação profissional de mais de três mil jovens em áreas musicais e outras atividades.

O Ara Ketu alcançou reconhecimento nacional e internacional, mas para Vera, que completará 80 anos em setembro, a maior recompensa são os agradecimentos de ex-participantes que construíram suas carreiras a partir dos cursos oferecidos. Seu trabalho social, entrelaçado à música, já lhe rendeu o título de “comendadora” pela Academia Brasileira de Letras.

A trajetória de Vera Lacerda serve de inspiração para Débora Souza, 48 anos, presidente do bloco Didá, uma agremiação e banda exclusivamente feminina do Pelourinho, em Salvador. Fundado pelo pai de Débora, Antônio Luiz Alves Souza, o “Neguinho do Samba”, o Didá já acolheu mais de cinco mil mulheres. “Através do tambor, nós passamos toda a lição. Nossas alegrias, nossos sentimentos e nossas reivindicações”, explica Débora.

A ideologia do bloco gira em torno da garantia da liberdade feminina, onde as integrantes se sentem empoderadas e “armadas com o tambor, sentem-se rainhas”. Na mesma mesa de debates do Festival Latinidades, a cantora e radialista Denise Oliveira, produtora da Rádio Nacional, ressaltou a importância de iniciativas como Ara Ketu e Didá para a transformação de vidas nas periferias.

Criada em São Sebastião, área periférica de Brasília, Denise destacou como a arte a ajudou a se encontrar como mulher negra, artista e trabalhadora da cultura desde os 15 anos. Ela também enfatizou o papel fundamental das mulheres na construção de movimentos culturais, como os blocos afros.

Denise, que cresceu em movimentos culturais periféricos e se tornou cantora de samba, também desenvolveu o projeto “Vozes da Diversidade”, um programa voluntário que entrevistava artistas periféricos do Distrito Federal e que foi indicado ao prêmio WME da Billboard em 2024, uma premiação que celebra o empoderamento e a representatividade feminina.

Com informações de: AGBR

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