Livro “(Ab)Sinto” transforma vivências do autismo em literatura de resistência no Salipi

Lançado no último dia 7 de junho, durante a 24ª edição do Salão do Livro do Piauí (Salipi), o livro (Ab)Sinto apresentou ao público uma narrativa marcada pela sensibilidade, pela força autobiográfica e pela resistência diante das barreiras impostas pelo capacitismo. A obra reúne crônicas em prosa poética que transitam entre memória, identidade, arte e pertencimento, tendo como ponto de partida a experiência da autora Ana Cândida Carvalho como mulher autista e fotógrafa artística.

O lançamento ocorreu às 18h, com mediação da escritora Elara, redatora da Geleia Total, e proporcionou ao público um mergulho nas experiências, reflexões e sentimentos que atravessam a trajetória da escritora. A conversa revelou diferentes facetas de sua produção literária e de sua vivência como mulher neurodivergente, em uma obra que transforma experiências pessoais em matéria-prima para a criação artística.

Fotógrafa artística, psicóloga, escritora e servidora pública, Ana Cândida nasceu em Teresina e é filha de pais amarantinos. Mestre em Filosofia e doutoranda na área, ao longo de sua trajetória construiu uma produção que dialoga com temas como neurodiversidade, identidade e expressão artística. Também administra o blog Mulher Aspie, espaço dedicado à reflexão sobre o autismo e às experiências de mulheres neurodivergentes.

(Ab)Sinto reúne textos que revelam diferentes camadas da autora, construindo uma escrita que dialoga diretamente com questões relacionadas ao autismo, à arte e às formas de existir em uma sociedade que ainda impõe barreiras à diversidade humana.

Autorretrato produzido no quarto da autora. A fotografia não faz parte da obra (Ab)Sinto.

Ao longo da obra, a literatura surge como ferramenta de resistência. As crônicas abordam sentimentos, episódios e reflexões que, durante muito tempo, permaneceram silenciados. A autora destaca que muitas pessoas autistas enfrentam a necessidade constante de mascarar comportamentos para serem aceitas socialmente, enquanto outras permanecem relegadas às margens, sem espaço para expressão ou acolhimento.

“A literatura funciona como via de resistência, num mundo capacitista, que cultiva segregações múltiplas cotidianas, sem brechas para respiro. Muitos autistas sobrevivem mascarando seus comportamentos, ou relegados às franjas sociais”, afirma.

Escultura “Quitapesares”, alter ego de Ana Cândida Carvalho, com apenas 2,5 centímetros de altura.

Os textos reunidos no livro transformam experiências íntimas em narrativas compartilhadas. “O livro traz retratos de acontecimentos e sentimentos, antes atarracados à goela: agora plainam entre mentes, espero!”, escreve a autora.

A escrita também se apresenta como uma extensão da própria existência. Em (Ab)Sinto, personagens, memórias e fragmentos do cotidiano se entrelaçam em uma construção literária que busca ultrapassar a experiência individual para alcançar outras vivências e sensibilidades.

“Crio para resistir, sempre. Sou minhas personagens e desejo dar-lhes vida, vivendo também em suas andanças”, ressalta.

Além da literatura, a fotografia ocupa papel central em sua identidade artística. Para Ana Cândida, palavra e imagem percorrem caminhos paralelos, alimentando-se mutuamente na tentativa de registrar afetos, memórias e permanências. Seu trabalho fotográfico já integrou exposições e projetos culturais, consolidando a imagem como outra forma de escrita.

“Fotografia é a expressão da minha alma, é um tipo de escrita e eu preciso disso, é um grito”, define a autora.

A relação entre fotografia e literatura aparece de forma intensa em (Ab)Sinto. “A fotografia e a palavra escorrem em vias paralelas, na minha vida, debulhando rastros de passadelas insistentes, que vou oferecendo sem ressalvas. Grito, então, para alcançar almas e sobreviver!”, escreve.

Com uma linguagem poética e, ao mesmo tempo, contundente, (Ab)Sinto soma-se à produção literária contemporânea que amplia o debate sobre neurodiversidade, identidade e inclusão. Mais do que um livro de crônicas, a obra transforma experiências individuais em narrativas capazes de dialogar com diferentes leitores, abrindo espaço para reflexões sobre pertencimento, humanidade e resistência em uma sociedade que ainda aprende a conviver com a diversidade.

MAIS NOTÍCIAS

+LIDAS DA SEMANA