Andrea, 32 anos, espera o ônibus no centro de Brasília segurando a mão de seu filho de 6 anos, que já tem os olhos vermelhos de chorar. “Ele queria ficar mais tempo com os amiguinhos para brincar e eu não deixei.
Ainda vamos para Samambaia”, explica a mãe solteira, que conta que usa a técnica de contar até mil para pacificar birras, mas afirma que “não vai bater nunca” e que seu filho deve respeitá‑la. Ela lembra que, quando era criança, sofria tapas, sobretudo do pai, e que não pretende repetir o mesmo padrão.
A história de Andrea faz parte de um levantamento do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), divulgado nesta quinta-feira (24).
O estudo, que entrevistou 214 pessoas em áreas de vulnerabilidade – 123 no Rio de Janeiro (Grande Pavuna e Grande Jacarepaguá), 37 no Recife (Ibura) e 54 em Manaus (Colônia Antônio Aleixo e Parque das Tribos) – buscou entender por que pais, mães e cuidadores recorrem à palmada na primeira infância.
A pesquisadora Luiza Teixeira, especialista em Proteção à Criança do Unicef no Brasil, destaca que a maioria dos entrevistados considera a palmada como um método de disciplina, distinguindo-a do espancamento.
A pesquisa aponta que a Lei Menino Bernardo, conhecida como Lei da Palmada e inserida no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) desde 1990, ainda é pouco conhecida pelas famílias e é interpretada de forma que legitima a violência como forma de educar. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelam que, no ano passado, foram registrados mais de 60 mil casos de maus‑tratos ou lesões corporais em crianças e adolescentes, um aumento de 106% em relação a 2024.
Entre as recomendações do Unicef, destaca-se a necessidade de fortalecer a prevenção, capacitando profissionais da rede de proteção e desenvolvendo campanhas que ensinem a estabelecer limites sem violência, especialmente em territórios mais vulneráveis.
A psicóloga infantil Mara Gomes, que trabalha em Brasília, ressalta que a primeira infância é marcada por intensa evolução cognitiva e emocional, e que a palmada pode levar a submissão ou agressividade nas crianças. Já a pedagoga Marília Paiva, atuante em São Paulo, orienta que, diante de birras, o adulto deve se regular, acolher o sentimento da criança, estabelecer limites e, quando possível, ensinar. Para ambas, a palmada não educa e apenas gera medo e constrangimento.

Estudo ouviu 214 pessoas em comunidades de três cidades do país
Com informações de: AGBR
