
Se alguém te dissesse que um quilo de café feito a partir de fezes de pássaro custa R$ 1.530, você provavelmente acharia que é exagero ou pegadinha. Porém, esse é o preço real do Jacu Bird Coffee, o café exótico produzido na Fazenda Camocim, nas montanhas do Espírito Santo, a partir de grãos catados manualmente do cocô da ave jacu. O pacote de 250 gramas sai por R$ 382 e encontra comprador dentro e fora do país.
O problema que virou solução
A “virada de chave” veio em 2008, quando a fazenda decidiu se inspirar no Kopi Luwak, o famoso café da Indonésia produzido a partir das fezes de civetas, pequenos mamíferos. A partir dali, o que era sinal de prejuízo começou a ser tratado como oportunidade, com direito a certificação da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) e status de produto orgânico e biodinâmico.
O processo é totalmente manual. O jacu come o café maduro e, cerca de 40 minutos depois, elimina os grãos praticamente inteiros, em blocos que lembram um pé de moleque. Funcionários da fazenda percorrem a área recolhendo os resíduos a mão, separam os grãos e levam para secagem. Depois da estufa, o café passa por uma câmara fria, onde fica até um mês a temperaturas de até 25 graus negativos. Na sequência, vem a seleção por tamanho, cor e qualidade, para só então seguir para torra, moagem e preparo.
O resultado é um café com baixo teor de cafeína, porque a ave consome cerca de 70% da substância durante a digestão. É justamente esse processo incomum, somado ao trabalho intensivo, que ajuda a explicar o preço salgado. “É um processo caro de fazer, não existe máquina de processar resíduos de pássaros”, resume Sloper.
Quando você compara o valor do Jacu Bird Coffee com o mercado tradicional, a diferença assusta. Uma saca de 60 quilos de café arábica comum hoje gira entre R$ 1.700 e R$ 1.900, dependendo da região. Nos cafés especiais, mesmo os mais premiados do país, o número continua bem abaixo do que o jacu entrega.
Em dezembro, um leilão da BSCA com 30 lotes vencedores do Cup of Excellence Brazil 2025 arrecadou cerca de R$ 1,79 milhão, o que equivale a aproximadamente R$ 15 mil por saca de 60 quilos, ou R$ 250 o quilo. Na prática, o quilo do café de fezes de jacu custa cerca de seis vezes mais do que alguns dos melhores cafés especiais brasileiros. E, se você olhar para fora, a discrepância aumenta: na Inglaterra, o mesmo café chega a ser vendido pelo equivalente a R$ 9 mil o quilo.
Apesar de ocupar um nicho minúsculo dentro da produção da Camocim, o impacto financeiro é relevante. Em cada safra, saem da fazenda cerca de três toneladas do café do jacu, dentro de um total de 230 toneladas de café produzidas. O suficiente para abastecer mercados exigentes como Japão, França e Inglaterra, além de um público brasileiro disposto a pagar caro pela experiência.
O jacu como “funcionário” da agricultura regenerativa
Para além do lado exótico, o jacu virou peça de comunicação da fazenda sobre práticas de agricultura regenerativa. Sloper costuma dizer que o animal cumpre três funções na propriedade: funciona como alarme de colheita, selecionador e replantador. Se o jacu está comendo, é porque o café está no ponto. Ao escolher os melhores frutos, ele faz uma pré-seleção natural. E, ao voar e defecar pela mata, ajuda a espalhar sementes e nutrientes.
O que isso acende de alerta para o agronegócio?
Ainda que o Jacu Bird Coffee seja um caso extremo, ele joga luz em tendências que interessam ao produtor rural que está atento ao mercado. De um lado, mostra como nichos ultrasegmentados, baseados em narrativa forte e diferenciação sensorial, conseguem multiplicar o valor por quilo em relação ao café comum. De outro, escancara como o consumidor global está disposto a pagar caro por histórias de origem, biodiversidade e produção alinhada à agricultura regenerativa.
Para quem vive do agro, o recado é direto: inovação não está só na máquina nova ou na variedade mais produtiva. Às vezes, começa em algo que parece problema, como um bando de jacus atacando o café, e termina em um produto que custa seis vezes mais que os grãos campeões do país.
Fonte: PORTAL-IG

