Salipi celebra livros e debate desafios da era digital

O Salão do Livro do Piauí (Salipi) segue movimentando o cenário cultural e educacional do estado ao reunir escritores, pesquisadores, professores, estudantes e leitores em torno da literatura e da produção do conhecimento.

Em sua 24ª edição, realizada até o dia 14 de junho no Espaço Rosa dos Ventos da Universidade Federal do Piauí (UFPI), o evento promove não apenas o incentivo à leitura, mas também reflexões sobre temas contemporâneos como desinformação, inteligência artificial, pensamento crítico e educação.

Considerado um dos maiores eventos literários do Nordeste, o Salipi homenageia neste ano o escritor, poeta, historiador, professor e cronista piauiense Paulo Machado. A programação reúne palestras, debates, oficinas, lançamentos de livros, atividades educativas, apresentações culturais e as tradicionais discussões do Seminário Língua Viva.

Para o professor e escritor Cineas Santos, a trajetória do salão representa uma conquista que superou todas as expectativas dos organizadores. Segundo ele, quando o projeto foi criado, em 2003, não havia qualquer certeza sobre sua continuidade.

“Quando começamos, chegar à 24ª edição era algo inimaginável. Achávamos que o evento teria uma ou duas edições. Hoje, podemos afirmar que o Salipi veio para ficar e se tornou um patrimônio do povo do Piauí”, destacou.

Cineas lembra que o evento nasceu de forma independente, sem a estrutura institucional normalmente presente em grandes feiras literárias brasileiras. Nos primeiros anos, o salão precisou utilizar a estrutura administrativa da Oficina da Palavra para viabilizar sua realização.

O professor também contestou a percepção de que a leitura estaria perdendo espaço na sociedade. Segundo ele, os números do mercado editorial demonstram crescimento na venda de livros físicos, especialmente entre o público jovem.

“Existe a ideia de que as pessoas estão lendo menos, mas as estatísticas mostram outra realidade. Os jovens continuam lendo, seja por meio dos livros impressos ou de outras plataformas. A leitura permanece viva e relevante”, afirmou.

O sociólogo e professor Antônio José Medeiros avalia que a consolidação do Salipi ao longo de mais de duas décadas demonstra a importância que a sociedade piauiense atribui à educação, à cultura e à formação intelectual.

“O crescimento do Salipi e das iniciativas inspiradas nele em outras cidades do estado é motivo de satisfação. Precisamos manter viva a tradição da leitura dos livros, porque ela desenvolve a reflexão, a capacidade crítica e uma compreensão mais profunda da realidade”, afirmou.

Para Medeiros, a leitura torna-se ainda mais necessária diante das transformações provocadas pelo ambiente digital. Ele observa que as redes sociais ampliaram o acesso à informação, mas também facilitaram a circulação de conteúdos falsos e a intensificação de disputas ideológicas.

“As redes sociais não são a causa da polarização, mas podem contribuir para ampliá-la. Por isso, a escola tem um papel fundamental no desenvolvimento da consciência crítica dos jovens e na formação de cidadãos capazes de avaliar informações e tomar decisões com autonomia”, explicou.

O professor também chamou atenção para os desafios impostos pelo avanço da inteligência artificial. Segundo ele, a sociedade vive um momento em que a produção de conteúdos automatizados cresce rapidamente, tornando cada vez mais difícil distinguir informações produzidas por pessoas daquelas geradas por sistemas tecnológicos.

“Já existem pesquisas mostrando que muitas pessoas não conseguem diferenciar conteúdos criados por inteligência artificial daqueles produzidos por seres humanos. Isso demonstra a necessidade urgente de desenvolvermos competências críticas para lidar com essa nova realidade”, observou.

Medeiros defendeu ainda uma maior valorização dos profissionais da educação. Para ele, a escola não pode assumir sozinha a responsabilidade pela formação crítica das novas gerações sem que haja investimentos adequados na carreira docente.

“Não podemos atribuir à escola todas as responsabilidades sem oferecer condições para que ela cumpra sua missão. Valorizar os professores, melhorar os salários e permitir que eles se dediquem a uma única escola são medidas fundamentais para fortalecer a educação”, ressaltou.

Ao reunir literatura, educação, cultura e debates sobre os desafios contemporâneos, o Salipi reafirma sua relevância como espaço de circulação de ideias e formação cidadã. Após 24 edições, o evento permanece como uma das principais referências culturais do Piauí, fortalecendo o hábito da leitura e promovendo reflexões sobre os caminhos da sociedade em um mundo cada vez mais conectado e tecnológico.

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