Educação de Teresina: do colapso ao topo em semanas – e o “mérito” que continua sem data

Em janeiro de 2026, o prefeito Silvio Mendes afirmou, em entrevista ao Portal Atualize, que as finanças da Prefeitura estavam reorganizadas. Questionado sobre a retomada da gratificação por mérito dos professores – suspensa em sua gestão -, a resposta veio em forma de recuo: não era possível pagar naquele momento. O argumento central era técnico, mas o tom político era claro – a educação herdada não entregava resultados.

Pouco mais de dois meses depois, o discurso mudou.

No dia 1º de abril, Teresina aparece como destaque nacional em alfabetização, alcançando o primeiro lugar entre as capitais brasileiras. O índice salta de 57% para 80,58%, ultrapassando inclusive a meta projetada para 2030. A cidade recebe selo ouro em programa nacional e passa a ser tratada como referência. Em vídeo divulgado nas redes sociais, o prefeito celebra o feito, agradece à equipe da Secretaria Municipal de Educação e anuncia: o pagamento por mérito será reavaliado. Agora, “mérito é resultado”.

A frase é direta. O problema é o intervalo.

Em fevereiro, o próprio prefeito havia apontado um cenário crítico: crianças no 9º ano sem saber ler, alfabetização fragilizada e critérios de mérito considerados distorcidos. Na mesma linha, justificou o corte da gratificação com base na ausência de desempenho consistente. Professores, naquele momento, não poderiam ser premiados.

Hoje, com os novos números, passam a ser.

A questão que se impõe não é apenas técnica, mas de coerência. Como uma rede que apresentava falhas estruturais profundas, segundo a própria gestão, alcança em semanas um dos melhores desempenhos do país? Houve mudança metodológica? Revisão de indicadores? Ou os dados anteriores e atuais operam sob critérios distintos?

A gestão municipal não detalhou.

Outro ponto permanece em aberto: o pagamento. Apesar da sinalização positiva, não há prazo definido para a retomada da gratificação por mérito. Professores – protagonistas do resultado celebrado – continuam sem saber quando, ou se, serão contemplados.

O discurso oficial mudou de direção. Sai a crítica ao passado recente, entra a celebração do presente. No meio disso, uma linha tênue separa narrativa política e realidade educacional.

Os números são expressivos. A dúvida, também.

Porque, em educação, resultado não se constrói da noite para o dia. E quando acontece rápido demais, o mínimo que se espera é explicação.

RECENTES

MAIS NOTÍCIAS