Brasil não pode abrir mão de submarino nuclear nem ceder à pressão para revelar seus detalhes

Submarino Tonelero é movido a diesel e faz parte do programa desenvolvido com a França para a construção de outros três submarinos convencionais. Meta é Brasil ter submarino nuclear em 2037
© Ricardo Stuckert/Presidência da República

O almirante de Esquadra Alexandre Rabello de Faria é, como boa parte dos membros da Marinha, um especialista em navegação.

Desde 2024, no entanto, ele vem tendo que navegar as conturbadas águas da burocracia brasileira e da conjuntura internacional para conduzir a maior ambição militar da história brasileira: a construção do primeiro submarino nuclear do Brasil.

Rabello, como é conhecido entre os colegas, é o chefe da Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha (DGDNTM) desde 2024. Ele tenta colocar de pé, ou no mar um projeto que vai completar 47 anos em 2026 e que já consumiu, junto com a construção de outros quatro submarinos convencionais, aproximadamente R$ 40 bilhões desde 2008.

No front doméstico, a principal batalha é por orçamento. Em março deste ano, veio à tona um pedido feito de R$ 1 bilhão feito pela Marinha para evitar a paralisação do programa.

Atrasos e redução de repasses fizeram, segundo Rabello disse à BBC News Brasil, com que o projeto tivesse sua data de conclusão alterada diversas vezes, saindo de 2024 para 2037.

“Não vejo risco de (o projeto) ser paralisado, mas, se o nível de investimento for mantido, o ritmo do projeto aponta para mais tempo de execução. É contra isso que temos batalhado”, afirma o almirante em entrevista exclusiva à BBC News Brasil.

Atualmente, o projeto do submarino nuclear brasileiro ainda não chegou perto do mar. Neste momento, técnicos civis e militares se concentram na montagem do Laboratório de Geração Nucleoelétrica (Lagene), na cidade de Iperó, no interior de São Paulo.

É lá que, segundo os planos da Marinha, será montado em terra um protótipo do reator e do sistema de propulsão. Neste protótipo, os técnicos vão fazer testes para verificar a eficiência do reator e se ele consegue operar em condições de segurança.

Há alguns anos, o Brasil detém a tecnologia necessária para o projeto. O país detém jazidas de urânio, a tecnologia de enriquecimento e de transformação do minério em combustível nuclear e vem desenvolvendo um projeto nacional de reator.

Tudo isso, no entanto, ainda não foi materializado no submarino.

Após a fase de testes em terra, a próxima etapa é construir um novo reator e um novo sistema de propulsão e acoplá-lo ao casco na Base Naval de Itaguaí, no Rio de Janeiro, para mais testes antes de ser finalmente entregue.

O submarino nuclear brasileiro é semelhante aos convencionais, mas sua propulsão é gerada por um reator nuclear acoplado aos seus motores.

Ele seria estrategicamente importante, segundo os militares, para proteger os mais de 8 mil quilômetros de costa do Brasil. O submarino nuclear tem capacidade de se deslocar com velocidade muito maior do que os submarinos convencionais.

O projeto brasileiro prevê que ele seja armado apenas com torpedos convencionais e não com mísseis nucleares, já que o Brasil é signatário do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP).

No front internacional, a batalha é para avançar as negociações do Brasil com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). A agência supervisiona o cumprimento do TNP e realiza inspeções de programas nucleares dos países signatários do tratado, como o Brasil.

Para que o projeto brasileiro não seja considerado fora das regras da agência, o Brasil precisa chegar a um consenso com a AIEA sobre como ela fará as inspeções necessárias para se certificar de que o submarino nuclear brasileiro ou as suas instalações não seja usadas para a proliferação de armas ou tecnologia que resulte na produção de armas nucleares.

Em entrevista concedida à Folha de S. Paulo em 2024, o diretor-geral da agência, Rafael Grossi, defendeu que o Brasil se submeta a um regime rígido de fiscalização. Do lado brasileiro, o temor é que essas fiscalizações possam revelar detalhes sensíveis do projeto brasileiro.

Uma saída defendida por integrantes da AIEA seria o Brasil aderir a um protocolo adicional de inspeção. O almirante Rabello, no entanto, diz ser contra.

“Eu acho que aquilo que compromete a defesa do Brasil não pode ser negociado ou aceito pelo país”, diz. Ainda não há prazo para que as negociações com a AIEA sejam concluídas.

O Almirante de Esquadra Alexandre Rabello de Faria assumiu o comando da diretoria responsável pelo submarino nuclear em 2024
© Saulo Cruz/Agência Senado

Rabello avalia ainda que as mudanças na conjuntura internacional marcadas por conflitos como a guerra na Ucrânia e no Irã fazem com que aumente a relevância do submarino nuclear para o Brasil.

“O mar é a nossa fronteira mais vulnerável. Dispor de um elemento que traga alguma forma de dissuasão, como é o caso do submarino nuclear, traz ao projeto uma relevância maior num mundo cada vez mais instável”, diz.

Na entrevista, Rabello também analisa a mudança na política norte-americana em relação à América Latina.

Em dezembro de 2025, os EUA lançaram sua nova política de segurança nacional. O documento aponta que o país fará esforços para retomar sua influência sobre o hemisfério ocidental, onde está a América Latina.

Ao mesmo tempo, o país deslocou parte da sua frota militar para a costa da Venezuela e, em janeiro, realizou uma ação militar no país e deteve o ex-presidente Nicolás Maduro.

Rabello diz considerar os Estados Unidos um “parceiro”, mas diz reconhecer que a mudança na postura do país o preocupa.

“Do ponto de vista da Marinha, os Estados Unidos sempre foram nossos parceiros. Mas, evidentemente, isso traz preocupações políticas. Há uma tentativa de nova divisão do mundo em partes obrigando os países a aderir a uma parte ou a outra”.

Nesse contexto de tensão internacional, o Brasil não poderia desistir do projeto.

“Se a gente entender a defesa do Brasil como algo importante para a segurança de todos nós, o Brasil não pode abrir mão dessa tecnologia e desse ativo militar”.

Fonte: BBC

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