Brasil gera energia demais e ainda assim desperdiça

O Vale do Silício, berço de muitas das disrupturas tecnológicas que o Brasil tenta copiar, hoje vive uma autêntica mudança de identidade. E não é só sobre novos produtos: a própria forma de inovar está sendo redesenhada pela inteligência artificial.

Missão técnica no Vale do Silício mostra que o Brasil está adiando uma transformação que pode encarecer o sistema elétrico

“É impressionante ver o tamanho das fábricas voltadas para inovação, pesquisa e desenvolvimento. Existe um ecossistema inteiro funcionando de forma integrada, com foco em eficiência e melhoria contínua de processos”, relatou.

A diferença é que, lá, a IA entra para acelerar testes, simulações e até automação de linhas de produção. Aqui, o desafio ainda é mais básico: organizar processos, reduzir ineficiências e parar de perder energia que já foi gerada.

O Brasil gera energia demais e esbanja

O Brasil enfrenta um problema pouco divulgado: em certos momentos, o sistema gera energia a mais e, em vez de aproveitá‑la, precisa desligar usinas. Isso acontece em um cenário em que 44,3% da matriz vem das hidrelétricas, 22,5% da solar e 13,4% da eólica.

Hidrelétricas, por design, funcionam melhor em regime contínuo. Quando o operador corta produção, desgasta equipamentos e aumenta custos indiretos. “Hoje, em determinados momentos, geramos tanta energia que precisamos desligar hidrelétricas. Com o uso de baterias, seria possível armazenar esse excedente e otimizar o sistema”, disse Fagundes.
O ponto central é que, enquanto o Vale do Silício discute como a IA vai reduzir estruturas e aumentar produtividade, o Brasil ainda discute como capturar e armazenar a energia que já tem à disposição.

IA como pano de fundo dos novos modelos de fábrica

Nos ambientes percorridos por Fagundes, a impressão é de que a IA está substituindo repetição humana, não pessoas inteiras. Equipes menores, apoiadas por agentes de IA, conseguem desenvolver e testar produtos que antes exigiriam dezenas de profissionais.

Esse modelo impacta a forma como se pensa custo e escala. “O que diferencia um equipamento produzido em diferentes países muitas vezes é o custo. E o custo está diretamente ligado à eficiência. Se quisermos competir, precisamos produzir mais com menos, sem desperdício”, avalia o executivo.

No setor energético, isso se traduz em modelagem de redes, previsão de geração, detecção de falhas e gestão de baterias. IA pode, por exemplo, antecipar momentos de pico de solar ou eólica e sugerir quando armazenar ou injetar energia. Ainda assim, o Brasil caminha lentamente nessa direção.

O gargalo que segue sendo o fator humano

O que mais surpreendeu a missão brasileira foi o contraste entre o imaginário sobre automação total e a realidade das fábricas. “Há muita gente trabalhando, homens e mulheres em igualdade, com tarefas bem definidas. O diferencial está na organização, no uso de ferramentas simples como códigos de barras e testes em cada etapa. O erro é tratado na origem, não é escalado”, destacou.

Ainda assim, o executivo reforça que a produtividade não depende apenas de máquinas sofisticadas. “O ser humano, bem assessorado e com as ferramentas certas, produz muito bem. Todo mundo é capaz. O que existe é treinamento, disciplina e valorização de cada etapa do processo”, afirmou.

A matéria da Folha sobre IA no Vale do Silício reforça essa leitura: o polo hoje exige mais disciplina de dados, capacidade de decidir rápido e menos “burocracia de linhas-code”. O Brasil, por outro lado, ainda convive com formação técnica desigual e curvas de aprendizado atrasadas.

Educar, organizar e inovar

Para Fagundes, a transição energética não depende só de leilões de baterias ou novas usinas. Depende de pessoa treinada para operar, monitorar e manter sistemas complexos. “Nosso maior potencial ainda não está sendo plenamente aproveitado porque falta qualificação. Não adianta ter recurso se não temos conhecimento para utilizá‑lo. Precisamos investir em formação técnica, em escolas profissionalizantes, em treinamento contínuo”, defendeu.

A analogia que ele usa compõe bem o cenário. “É como uma orquestra. Cada pessoa executa sua função no tempo certo, com precisão. O resultado é harmonioso. E isso não acontece por acaso, pois é fruto de método, treinamento e dedicação”.

Diante do que se observa no Vale do Silício, a mensagem fica mais clara: o Brasil corre o risco de chegar atrasado para o próximo ato da revolução energética se não conseguir, ao mesmo tempo, elevar o nível técnico da mão de obra e incorporar inteligência artificial na forma como planeja, gera e armazena energia.

Fonte: PORTAL-IG

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