Recebi em mãos o poema “Histórico do sargento da briosa Polícia Militar”, escrito por meu avô materno, José Francisco de Moura, conhecido como Zé Maroto. Datado de 25 de dezembro de 1995, o poema foi produzido quando ele já atravessava o tempo com a lucidez de quem olha para trás e reconhece o próprio percurso.
Dois anos depois, em 29 de maio de 1997, ele partiria. Havia nascido em 13 de novembro de 1913. O que leio, portanto, não é apenas memória – é síntese. É um homem no fim da travessia tentando organizar a própria vida antes que o tempo a dissolva.
E talvez seja também, sem que ele soubesse, uma entrega.
Porque dele herdei o amor pela poesia.
Mas não a poesia das formas perfeitas. Herdei a poesia que nasce da vida vivida, da palavra que não se enfeita para agradar – apenas para permanecer. A poesia que registra, que insiste, que resiste ao esquecimento.
E herdei também outra coisa: a escuta.
Zé Maroto era violeiro e repentista. Pensava em ritmo, falava em cadência, organizava o mundo em versos – inclusive fora do papel. Sua relação com a palavra vinha da oralidade, do improviso, do encontro entre voz e tempo. E isso atravessa o poema, mesmo quando ele se apresenta como memória escrita.
Antes mesmo das experiências que registra, há um traço de sua trajetória que amplia ainda mais sua dimensão: foi voluntário da campanha da FEB – a Força Expedicionária Brasileira – na Segunda Guerra Mundial, na Itália. Há, desde cedo, nele, uma disposição para o dever, para o enfrentamento, para estar onde a história exige presença.
Quando criança, eu gostava de ficar perto dele. Eu colocava Dilermando Reis e Garoto para tocar, e ele ouvia com uma atenção inteira. Gostava dos chorinhos, do violão popular, dessas melodias que parecem conversar com o tempo. Eu colocava um chorinho no toca CD e ficava ali, ao lado dele, em silêncio – como quem aprende sem saber que está aprendendo.
Zé Maroto escreve depois de tudo. Não no calor dos acontecimentos, mas na distância que permite ver. Há, nesse gesto, uma tentativa de fechamento – ou de alinhamento interior. Como quem percorre a própria história e decide o que precisa ficar.
Há, em sua escrita, uma consciência muito nítida de dever. Ele se define pelo que cumpriu, pelo que sustentou, pelo que enfrentou. Como policial militar, foi designado para fiscalizar as fazendas nacionais, em extensas regiões marcadas por conflitos e pela necessidade de presença do Estado.
Quando registra a missão de evitar o furto de cera e gado, ele se inscreve dentro de um tempo específico – o do Piauí atravessado pelo ciclo econômico da carnaúba, que teve auge no início do século XX e se consolidou após 1940, moldando relações de trabalho, tensões e formas de sobrevivência. Sua vida não se deu à margem desse cenário. Ela foi atravessada por ele.
Psicologicamente, revela-se um homem estruturado pela responsabilidade. Alguém que organiza a própria existência a partir do cumprimento, da ação, da firmeza.
Mas a vida não cabe inteira dentro do que se escreve.
Há dimensões que permanecem fora da palavra. Há experiências que não se registram com a mesma clareza com que se registram os feitos, as missões, os enfrentamentos. E é nesse espaço – entre o que foi dito e o que ficou em silêncio – que também se reconhece quem ele foi.
Havia nele força, direção, presença. E, como em toda vida, também existiam limites – zonas onde o humano escapa àquilo que se consegue sustentar plenamente.
Ainda assim, há verdade no que permanece.
Quando ele escreve sobre as dificuldades, sobre as injustiças, sobre a perda de um filho, há uma dor que não se disfarça. E, ao mesmo tempo, há uma contenção impressionante. Ele não se desmancha. Ele sustenta. Nomeia. Segue.
Esse talvez seja o traço mais forte de sua subjetividade: a capacidade de suportar sem se fragmentar.
E há também permanência.
Os filhos, os lugares, o “Cabeço” que se transforma em cidade, o tempo que passa sem apagar completamente o que foi vivido. Ele não escreve apenas sobre si – escreve sobre um tempo, sobre uma forma de existir, sobre uma geração inteira.
Ao ler esse poema, entendo que ele escreveu para não desaparecer. Para deixar inscrito, com a simplicidade de quem viveu de fato, que esteve aqui, que enfrentou, que construiu.
E, sem que talvez tivesse essa intenção, deixou também outra coisa: um fio.
Porque ao ler, percebo que sigo.
Sigo na palavra, sigo na escuta, sigo nesse gesto de transformar vida em linguagem – como naquele tempo em que eu colocava um chorinho no toca CD e permanecia ao lado dele, aprendendo em silêncio.
Há algo de demasiado humano nisso: não apenas o desejo de permanecer, mas o de continuar em outro.

