
A Polícia Federal atribui ao ex-presidente Jair Bolsonaro e ao vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro o comando de uma organização criminosa que teria operado uma estrutura clandestina de espionagem dentro da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Segundo os investigadores, o esquema tinha como finalidade atacar opositores políticos, desacreditar o sistema eleitoral e proteger interesses pessoais e familiares do núcleo político ligado ao ex-presidente.
De acordo com o relatório, Bolsonaro era o principal beneficiário das operações ilegais e o responsável pelas decisões estratégicas do grupo. Embora ainda não tenha sido formalmente indiciado neste caso, ele já responde por organização criminosa em outro processo e é apontado como líder das ações na chamada “Abin paralela”.
Carlos Bolsonaro, por sua vez, é descrito como o “idealizador” da estrutura clandestina. A PF afirma que o vereador exercia papel central na condução das ações ilícitas, sendo o responsável por direcionar as informações produzidas pelos agentes envolvidos no esquema.
Esquema dividido em seis núcleos
A investigação resultou no indiciamento de 36 pessoas. A Polícia Federal organizou o funcionamento da suposta organização criminosa em seis núcleos:
• político;
• comando e alta gestão;
• assessoria e execução de ações clandestinas;
• estrutura operacional de inteligência;
• produção e disseminação de fake news;
• embaraço às investigações.
Bolsonaro e Carlos estariam no chamado núcleo político, descrito como o responsável por traçar as diretrizes da organização, escolher os alvos das ações de espionagem (como adversários políticos, instituições democráticas e o sistema eleitoral) e obter vantagens políticas a partir dessas operações.
O relatório sustenta que as ações da Abin paralela tinham como foco principal a proteção do núcleo familiar de Bolsonaro e o uso das informações obtidas de forma ilegal para fins políticos.
Sigilo retirado
O conteúdo do relatório da Polícia Federal foi tornado público nesta quarta-feira (18) por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. A medida veio após constatações de que partes do documento estavam sendo vazadas de forma seletiva para a imprensa.
“A despeito do sigilo dos autos, lamentavelmente, vêm ocorrendo inúmeros vazamentos seletivos de trechos do relatório apresentado pela autoridade policial, com matérias confusas, contraditórias e errôneas na mídia”, escreveu Moraes na decisão.
Permanece sob sigilo apenas o material relacionado a dados bancários e fiscais dos investigados. O ministro também determinou o envio do relatório à Procuradoria-Geral da República, que terá 15 dias para se manifestar sobre os próximos passos do processo.
Entre os indiciados estão Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e o deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), ex-diretor da Abin durante o governo Bolsonaro. O inquérito tem 1,1 mil páginas e detalha, segundo a PF, o funcionamento interno da rede de espionagem ilegal.






