
A Quarta-feira de Cinzas inaugura, para os cristãos, um período de recolhimento e preparação espiritual conhecido como Quaresma. Esse tempo se estende até a Quinta-feira Santa e é vivido, tradicionalmente, como uma etapa de revisão de vida, marcada por atitudes concretas de oração, autocontrole e solidariedade.
Apesar de, no calendário, o intervalo parecer maior, a tradição da Igreja considera apenas os dias úteis nesse cálculo. Os domingos ficam de fora da contagem por serem entendidos como dias de celebração da ressurreição. Assim, mantém-se o simbolismo dos quarenta dias, número que dá identidade ao período.
Um tempo de transformação interior
Na tradição bíblica, o número quarenta está associado a momentos de provação e amadurecimento espiritual. Foi esse o tempo de recolhimento vivido por Jesus no deserto antes do início de sua missão pública. Inspirados por esse relato, os fiéis são convidados a atravessar a Quaresma como um caminho de revisão de atitudes, escolhas e prioridades.
A proposta não se resume ao cumprimento de regras religiosas. A Quaresma é compreendida como um convite à mudança de mentalidade e de postura diante da vida. Não se trata de um período de obrigações rígidas, mas de um processo de conscientização que prepara o coração para a celebração da Páscoa.
Existem, porém, orientações gerais da Igreja para esse tempo, especialmente ligadas às práticas penitenciais. Entre elas estão o jejum na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa, indicado para adultos, e a abstinência de carne às sextas-feiras da Quaresma, a partir da adolescência. Pessoas doentes, idosas, gestantes ou em situações específicas são dispensadas dessas práticas. Hoje, essas orientações são vistas como referências educativas, e não como o centro da vivência quaresmal.
Três caminhos que se complementam
A vivência da Quaresma é tradicionalmente sustentada por três atitudes principais: jejum, oração e caridade. Juntas, elas ajudam a pessoa a rever comportamentos, fortalecer a vida espiritual e ampliar o olhar para o outro.
O jejum não se limita ao prato. Ele pode se expressar na redução de excessos, no afastamento de hábitos nocivos e na revisão da relação com o consumo. A proposta é criar espaço interior, e não apenas abrir mão de algo por obrigação.
A oração é o convite ao silêncio e à escuta. Em um cotidiano marcado por pressa e distrações constantes, a Quaresma propõe diminuir o ritmo, refletir com mais profundidade e buscar maior conexão com a fé.
Já a caridade é a consequência prática das renúncias. Toda mudança pessoal é chamada a gerar impacto no cuidado com o outro. O gesto solidário dá sentido ao esforço interior e transforma a reflexão em ação concreta.
O sentido do jejum e da abstinência
Entre as práticas mais conhecidas da Quaresma está a abstinência de carne, especialmente às sextas-feiras. O gesto tem um valor simbólico: a renúncia a um alimento tradicionalmente associado à celebração lembra a simplicidade e o espírito de penitência próprios do período.
No entanto, o verdadeiro significado do jejum está na transformação que ele provoca. Quando não gera mudança de postura, mais empatia ou atitudes melhores no dia a dia, a prática perde sua dimensão espiritual e se reduz a um simples ritual.
Renúncia que vira partilha
A caridade ocupa lugar central na proposta quaresmal. Não se trata apenas de doar o que sobra, mas de transformar renúncias pessoais em gestos concretos de cuidado com quem mais precisa. O sentido do período está justamente em fazer com que o crescimento interior se traduza em atitudes de solidariedade.
A proposta da Igreja não é promover sofrimento, mas estimular uma vivência mais consciente, humana e atenta às necessidades do próximo.
Cinzas como símbolo de recomeço
O gesto das cinzas, realizado na Quarta-feira de Cinzas, marca simbolicamente o início desse tempo de mudança. Mais do que um ritual, ele representa a decisão pessoal de viver aquele período com mais responsabilidade e abertura para transformação.
A Quaresma não é apresentada como um tempo de tristeza, mas como uma oportunidade de crescimento. O convite é purificar atitudes, reorganizar prioridades e fortalecer a vida interior, preparando-se para celebrar a Páscoa com mais sentido.




