Uma tragédia recente reacendeu o debate urgente sobre segurança e preparo no ambiente escolar. Na tarde de ontem, terça-feira (5), uma aluna de apenas 4 anos faleceu após ser atingida por uma penteadeira em uma sala de brinquedos do CEV Colégio, unidade Presidente Kennedy, zona Leste de Teresina. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) foi acionado, mas a criança não resistiu aos ferimentos.
Mais do que um acidente isolado, o caso levanta uma pergunta essencial: as escolas estão preparadas para agir diante de emergências?
Quando segundos valem vidas

“Em situações de emergência, o tempo não é apenas precioso — ele é decisivo”, afirma a médica Samália Dias, especialista em medicina de família e comunidade, com pós-graduação em Pediatria.
Segundo a profissional, muitas escolas brasileiras, públicas ou privadas, ainda não têm um protocolo estruturado de primeiros socorros. “Falta capacitação continuada, simulações práticas, e principalmente: a cultura da prevenção. Não basta saber o número do SAMU. É preciso saber agir até que o socorro chegue”, reforça Samália.
Projeto “Pequenas Vidas Seguras”: formar para salvar
A tragédia envolvendo a menina de 4 anos não é um caso isolado. Crianças pequenas estão mais vulneráveis a acidentes por razões fisiológicas e comportamentais: são menores, exploram o ambiente com curiosidade, e nem sempre têm consciência do perigo.
Diante dessa realidade, nasceu o projeto Pequenas Vidas Seguras, que propõe uma formação voltada para professores, cuidadores e profissionais da educação sobre primeiros socorros pediátricos. A iniciativa segue os princípios do protocolo AIDP (Avaliação Inicial, Identificação do Risco, Decisão e Procedimentos).
“O objetivo é capacitar, sensibilizar e criar uma rede protetora dentro das escolas. Prevenir é mais que evitar: é saber cuidar antes que seja tarde”, pontua Samália, que atua como formadora do projeto.
O que diz a legislação?
A Lei nº 13.722/2018, conhecida como Lei Lucas, tornou obrigatória a capacitação em noções básicas de primeiros socorros para professores e funcionários de estabelecimentos de ensino públicos e privados de educação básica. A norma foi criada após a morte do pequeno Lucas Begalli, de 10 anos, durante um passeio escolar.
No entanto, passados quase sete anos desde sua sanção, a realidade está distante do ideal. Em muitos municípios, não há fiscalização, nem incentivo à formação contínua.
Educação não é só currículo: é cuidado
A morte da criança no CEV Colégio é devastadora — e também um alerta. Em vez de buscar culpados isolados, é preciso olhar para o sistema: há brinquedos e móveis ancorados? A equipe sabe o que fazer em caso de sufocamento, desmaio ou trauma? Há kits de primeiros socorros completos e acessíveis? Existe plano de evacuação?
Segundo Samália Dias, “uma escola segura é aquela que ensina com afeto e protege com responsabilidade. E proteger exige preparo”.
O que as escolas devem ter, segundo especialistas:
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Equipe capacitada anualmente em primeiros socorros pediátricos.
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Simulações regulares com alunos e funcionários.
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Inspeção constante dos ambientes escolares, com ênfase em móveis fixados e brinquedos seguros.
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Protocolos claros de emergência afixados em locais visíveis.
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Kit de primeiros socorros completo e atualizado.
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Parcerias com profissionais de saúde e bombeiros civis.
Onde nasce o cuidado, floresce a prevenção
O projeto Pequenas Vidas Seguras, realiza oficinas-piloto com educadores e famílias em Teresina, no intuito de ampliar suas ações. A meta é atingir escolas públicas, privadas e creches comunitárias.
“A prevenção é um ato de amor. E toda criança tem direito a ser cuidada com esse amor — inclusive nas emergências”, finaliza a médica Samália Dias.






