
Ao ler um artigo publicado por um perfil de Curitiba, a impressão imediata foi de familiaridade. O texto não parecia retratar uma realidade distante. Pelo contrário. Falava diretamente de Teresina e do comportamento cada vez mais comum dentro da Câmara Municipal da capital piauiense.
O fenômeno não é recente, mas tem se tornado mais evidente. Vereadores eleitos para representar demandas locais passaram a ocupar um espaço que vai além do município. Em vez de concentrarem esforços nos problemas da cidade, muitos direcionam sua atuação para debates nacionais, disputas ideológicas amplas e conteúdos pensados para redes sociais.
Esses parlamentares assumem uma postura que pouco dialoga com o cotidiano da população. O foco deixa de ser o bairro, a escola pública, a unidade básica de saúde ou o transporte coletivo. No lugar disso, surgem discursos voltados para temas que rendem curtidas, compartilhamentos e visibilidade digital.
Em Teresina, a contradição chama atenção. A cidade enfrenta desafios históricos na mobilidade urbana, na infraestrutura, na saúde pública e no planejamento urbano. Ainda assim, parte dos representantes municipais parece distante dessas urgências. O olhar se volta para fora, para um público genérico e muitas vezes alheio à realidade local.
Não se trata de posição política ou ideológica. O debate é sobre prioridade e compromisso. O mandato municipal existe para cuidar da cidade, fiscalizar o Executivo e propor soluções concretas para os problemas do dia a dia da população.
Com o avanço das redes sociais, a política ganhou novos palcos. O plenário deixou de ser apenas um espaço institucional e passou a funcionar também como cenário de gravações. Discursos são pensados para a câmera, não para o debate. A fala não termina na sessão, continua editada em vídeos curtos que circulam nas plataformas digitais.
Nesse ambiente, a lógica é clara. Quanto maior a visibilidade, maior o engajamento. Quanto maior o engajamento, maior o capital político. A polarização deixa de ser consequência e passa a ser método.
O resultado é uma Câmara Municipal que se expressa muito, aparece com frequência, mas entrega pouco em termos de soluções práticas. O vereador assume o papel de comentarista político nacional, enquanto os problemas da cidade permanecem à espera de respostas.
Nada disso fere a lei. Nada disso é formalmente proibido. Ainda assim, o cenário revela um sintoma preocupante. A política local também foi absorvida pela lógica da performance, onde aparecer se torna mais importante do que representar.
O debate central talvez não esteja no conteúdo dos discursos, mas no destino deles. Para quem esses pronunciamentos são feitos e qual cidade, de fato, está sendo defendida.
Teresina não precisa de parlamentares preocupados em atuar como figuras nacionais. Precisa de vereadores presentes, atentos e comprometidos com a realidade municipal. Vereadores que conheçam a cidade, caminhem por ela e façam do mandato um instrumento de transformação concreta.
Porque representar Teresina exige mais do que discurso. Exige presença, responsabilidade e compromisso com quem vive nela todos os dias.






