
Durante milhares de anos, populações que vivem nas regiões mais altas dos Andes argentinos beberam água com níveis de arsênico até 20 vezes acima do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Mesmo assim, essas pessoas não apresentam os efeitos graves que seriam esperados em outras populações. A explicação, segundo pesquisadores, está em uma adaptação genética única que permite ao organismo processar e eliminar essa substância tóxica com muito mais eficiência.
O arseníco é uma substância naturalmente presente no solo e nas rochas vulcânicas. Quando entra em contato com a água subterrânea, pode contaminar o abastecimento de comunidades inteiras. Segundo a OMS, o limite seguro é de 10 microgramas por litro. A exposição prolongada a níveis elevados está associada a câncer, lesões na pele, problemas cardíacos e defeitos ao nascimento.
Quando o arsênico entra no corpo, ele passa por etapas de transformação. Uma das formas intermediárias, chamada arsênico monometilado, é especialmente nociva. Já a forma dimetilada é mais fácil de ser eliminada pela urina. É justamente nesse processo que a população dos Andes se destaca.
O que a ciência descobriu sobre a adaptação genética nos Andes
Pesquisadores da Universidade de Uppsala, na Suécia, analisaram o DNA de 124 mulheres da cidade de San Antonio de los Cobres, na Argentina, localizada a cerca de 3.775 metros de altitude. Até 2012, quando um sistema de filtragem foi instalado, a água local continha cerca de 200 microgramas de arsênico por litro. Mesmo assim, a região é habitada há pelo menos 7.000 anos.
Essa descoberta foi documentada de forma detalhada no estudo, publicado na revista Molecular Biology and Evolution, da Oxford Academic. Segundo os autores, liderados por Carina Schlebusch e Lucie Gattepaille, a seleção natural teria favorecido variantes genéticas protetoras ao longo de milhares de anos de exposição contínua ao arsênico. Trata-se da primeira evidência científica de adaptação humana a uma substância química tóxica, o que representa um marco importante para o entendimento da evolução humana.
A principal diferença está na eficiência com que o organismo converte o arsênico. Nas populações adaptadas dos Andes, o corpo produz menos da forma intermediária tóxica e mais da forma que pode ser eliminada com facilidade pela urina. Essa característica foi observada inicialmente em 1995 e depois confirmada pela análise genética.
As variantes genéticas identificadas aparecem em uma região regulatória próxima ao gene AS3MT. Isso significa que elas provavelmente não alteram a estrutura da enzima em si, mas sim a quantidade produzida pelo organismo, tornando o processo de eliminação do arsênico mais rápido e seguro.
Quais são os principais riscos da exposição ao arsênico
Para quem não possui essa adaptação genética, os efeitos da exposição prolongada ao arsênico podem ser graves. Entre os principais riscos estão:
- Aumento da probabilidade de desenvolver câncer de pele, pulmão e bexiga
- Lesões e alterações na pigmentação da pele, como manchas escuras e espessamento
- Problemas cardiovasculares, incluindo hipertensão e risco elevado de infarto
- Danos ao sistema nervoso, com dormência e formigamento nas extremidades
- Complicações na gestação, como defeitos ao nascimento e aumento da mortalidade infantil
O que essa descoberta significa para o futuro da saúde humana
A pesquisa sobre a adaptação genética ao arsênico nos Andes não apenas revela um capítulo fascinante da evolução humana, como também pode abrir caminhos para novas estratégias de proteção à saúde. Estudos mais recentes sugerem que sinais genéticos semelhantes podem existir em outras populações andinas expostas ao arsênico por gerações, indicando que essa adaptação pode ser mais ampla do que se imaginava inicialmente.
Se você vive em uma região onde a qualidade da água é incerta ou apresenta sintomas que possam estar relacionados à exposição a substâncias tóxicas, procure orientação de um médico. Este conteúdo é apenas informativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou o tratamento de um profissional de saúde qualificado.
Fonte: Tua Saúde

