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Mulheres do Sertão de Mel: Apicultura e Protagonismo no Norte do Piauí

Elas vestem o macacão colorido, enfrentam o sol, cuidam das abelhas e sustentam suas casas.

Campo Maior (PI) – No calor resiliente do sertão, entre cactos, floradas nativas e o zumbido ritmado das abelhas, cresce uma força silenciosa: a das mulheres apicultoras. Em Campo Maior e municípios vizinhos, elas têm transformado a apicultura não apenas em sustento, mas em território de pertencimento, saber e autonomia.

A Associação dos Apicultores de Campo Maior e Região acompanha esse movimento com orgulho. Segundo o presidente da entidade, Sebastião Melo, o número de mulheres envolvidas na atividade cresce a cada ano, impulsionado por programas de capacitação, apoio técnico e, principalmente, pela coragem de quem decidiu “encarar a colmeia de frente”.

“Tem mulher de toda idade: casada, solteira, idosa… Todas com coragem de sobra. São elas que sustentam a casa com o mel. Cuidadosas, dedicadas e experientes, já mostraram que a apicultura tem muito rosto de mulher”, afirma Sebastião Melo.

Atualmente, 23 mulheres fazem parte da associação, contribuindo ativamente na produção, no cuidado com os enxames, na comercialização e na gestão dos próprios negócios.

Uma doçura que sustenta

Entre fumaça e zumbidos, Maria Cláudia atua com precisão.

Benta Andrade, 62 anos, é memória viva da apicultura em Campo Maior. Moradora da localidade Bom Lugar, ela foi a primeira mulher da região a trabalhar com abelhas e, há 25 anos, dedica-se exclusivamente à atividade.

“A apicultura foi tudo na minha vida. Foi com ela que eduquei meus filhos, sustentei minha casa e me mantive firme. Nunca tive outra profissão”, conta.

Seu nome é referência entre os apicultores da região, e sua trajetória inspira outras mulheres a enxergar no mel um caminho de autonomia e resistência.

Antonia Joclafa é força e doçura no sertão do mel. Com a apicultura, construiu sustento, história e futuro.

Antonia Joclafa, 49 anos, moradora de Coivaras, com residência também em Altos, é professora e apicultora desde 2019. O interesse pelas abelhas nasceu como um sonho antigo — que, por um tempo, ficou adormecido.

“Sempre quis trabalhar com apicultura para ajudar na renda da casa, mas no começo meu marido não acreditava muito. Foi só depois, quando ele trabalhava como motorista no sul do estado, que se encantou pela atividade e voltou com uma caixa de abelhas. A partir dali, tudo mudou.”

Hoje, Antonia, o marido e os filhos cuidam juntos das colmeias, com três colheitas por ano. Ingressaram na associação e construíram, passo a passo, uma nova realidade familiar.

“A apicultura mudou nossa vida. Com ela, a gente colhe mais do que mel — colhe dignidade, união e esperança.”

Outro exemplo de dedicação vem da zona urbana de Campo Maior. Maria Cláudia Alvarenga, 45 anos, moradora do Bairro de Fátima, conheceu a apicultura como disciplina do curso técnico em agropecuária, no IFPI. Apaixonou-se pela atividade e, hoje, cuida de 30 colmeias, observando atentamente o comportamento de cada enxame. Com marca própria, comercializa seu mel nas feiras da cidade.

“A apicultura representa um aprendizado constante. Não é só uma fonte de renda — é uma forma de cuidar da terra, das abelhas e de mim mesma. É um compromisso com o meio ambiente e com o futuro”, afirma.

Associação como elo

Presidente da Associação dos Apicultores de Campo Maior, Sebastião Melo, um guardião do mel e da coletividade.

A Associação dos Apicultores de Campo Maior tem sido protagonista no fortalecimento dessa presença feminina. Por meio de parcerias com instituições de ensino, ONGs e órgãos públicos, promove cursos de formação técnica, encontros de intercâmbio de experiências e apoio à comercialização.

Além disso, a entidade trabalha para garantir a participação equitativa das mulheres nas decisões associativas, fortalecendo o papel delas também como lideranças.

“Não queremos só mulheres produtoras. Queremos mulheres gestoras, empreendedoras, liderando cooperativas e empreendimentos”, ressalta Sebastião Melo.

Na sede da Associação, ideias e caminhos para fortalecer a apicultura local.

Para além do mel

A presença das mulheres na apicultura vai além da produção. Elas inovam na apresentação dos produtos, desenvolvem cosméticos naturais, misturas terapêuticas e práticas sustentáveis de manejo. Muitas também se tornam educadoras, levando a apicultura para escolas e projetos sociais, conectando juventude, biodiversidade e geração de renda.

Um futuro com sabor de resistência

A presença feminina nos apiários do Norte do Piauí é, ao mesmo tempo, um retorno às raízes e um voo rumo ao futuro. Num sertão onde cada flor é uma promessa de mel, as mulheres apicultoras seguem tecendo suas próprias colmeias de vida.

 

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