As mudanças climáticas devem provocar uma retração significativa das áreas adequadas à sobrevivência da Apis mellifera, espécie de abelha central para a apicultura e para a polinização agrícola, na bacia do Rio Doce, no Sudeste do Brasil. Estudo publicado no Journal of Applied Entomology revela que, até 2050, a região poderá perder 38% de sua área climaticamente favorável à espécie, mesmo em cenários considerados menos severos de aquecimento global, acendendo alerta para impactos simultâneos sobre biodiversidade, produção agrícola e economia rural.
A pesquisa analisou a distribuição futura das abelhas na bacia hidrográfica do Rio Doce, território que abrange Minas Gerais e Espírito Santo e que já carrega as marcas ambientais do rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, em 2015. Atualmente, cerca de 49.491 km² da bacia oferecem condições adequadas para a presença da espécie. Pelas projeções climáticas feitas pelos pesquisadores, essa área deve cair para aproximadamente 30.600 km² nas próximas décadas, reduzindo a cobertura favorável de metade para apenas 31% da área total estudada.
O impacto extrapola o campo ambiental. A bacia do Rio Doce concentra 1.925 estabelecimentos apícolas e mais de 82 mil colmeias registradas, o que faz da criação de abelhas uma atividade estratégica para renda local e abastecimento agrícola. A redução das áreas favoráveis pode comprometer tanto a produção de mel quanto a oferta de serviços de polinização, fundamentais para culturas agrícolas dependentes de insetos.
Segundo os autores, os principais fatores associados à retração são a irregularidade no regime de chuvas e as variações extremas de temperatura, especialmente no oeste da bacia, onde as perdas projetadas são mais intensas. A região leste tende a manter maior estabilidade climática, concentrando as áreas remanescentes de adequação para a espécie.
Nas áreas diretamente atingidas pela lama de rejeitos da Samarco, a redução prevista é menor — cerca de 8%. Ainda assim, os pesquisadores alertam que esse dado não representa melhora ambiental. A aparente estabilidade decorre apenas da coincidência geográfica dessas áreas com zonas climaticamente menos vulneráveis. Ecologicamente, o cenário segue crítico: solos contaminados, presença de metais pesados no pólen e no néctar e perda persistente da vegetação ciliar continuam comprometendo a saúde das colônias.
O estudo também chama atenção para uma contradição ecológica: embora a Apis mellifera seja vital para a agricultura, trata-se de uma espécie introduzida no Brasil. Em contextos ambientais fragilizados, sua predominância pode pressionar abelhas nativas, alterar redes de polinização e reduzir a diversidade de espécies locais. Em ecossistemas já degradados, como os afetados pelo desastre de Mariana, esse desequilíbrio tende a se intensificar.
Diante desse cenário, os pesquisadores defendem que políticas de restauração ambiental precisam ir além do reflorestamento das margens dos rios. Entre as medidas recomendadas estão o fortalecimento de habitats para polinizadores nativos, ampliação de áreas de nidificação, oferta diversificada de recursos florais e redução do uso de pesticidas. A preservação da apicultura, afirmam, dependerá cada vez mais da capacidade de conciliar adaptação climática com recuperação ecológica.
O estudo conclui que mesmo espécies reconhecidas por sua plasticidade e ampla adaptação, como a Apis mellifera, não estão imunes aos efeitos combinados da crise climática e da degradação ambiental. No caso da bacia do Rio Doce, o futuro das abelhas poderá servir também como termômetro do futuro da agricultura e da resiliência ambiental no Brasil.

