Manuscritos de Leminski esquecidos em avião reaparecem após 44 anos

Em 1982, ao fim de um voo entre Curitiba e São Paulo, o poeta Paulo Leminski deixou um envelope na poltrona da aeronave. O material foi recolhido por Ernani Edson de Paula, então gerente da Varig, e permaneceu guardado entre itens esquecidos por mais de quatro décadas, sem que seu conteúdo fosse analisado.

O envelope reúne rascunhos, páginas datilografadas com correções à caneta, desenhos feitos com pincel atômico e o cartão de embarque original do escritor. Entre os documentos, chama atenção uma tradução para o inglês da canção “Esotérico”, de Gilberto Gil, acompanhada de uma anotação manuscrita indicando que o trabalho foi produzido especialmente para o artista.

-Continua depois da publicidade-

A redescoberta ocorreu recentemente, quando Caroline, filha de Ernani, desconfiou do possível valor histórico do material e buscou validação. Ela procurou o jornalista Célio Martins, que reconheceu de imediato a relevância dos manuscritos. “Achados originais de figuras importantes da literatura são acontecimentos raros”, afirmou. A partir daí, a família do poeta foi informada e iniciou-se a articulação para devolução e divulgação do acervo.

Entrega e exposição pública

O material será entregue à família nesta quarta-feira (18), às 17h30, no auditório da Biblioteca Pública do Paraná – espaço frequentado por Leminski. Participam da cerimônia a escritora Alice Ruiz, companheira do autor por mais de duas décadas, e as filhas Áurea e Estrela.

Parte dos documentos ficará em exposição aberta ao público até o fim do mês. A iniciativa permite que leitores e pesquisadores tenham contato direto com o processo criativo do escritor. “O envelope mostra o jeito de produzir dele. Música, poesia, ideias, tudo ao mesmo tempo”, destacou Estrela Leminski.

Valor histórico e literário

Conhecido pela escrita concisa e experimental, Leminski transitou por diferentes linguagens ao longo da carreira. Foi poeta, romancista, tradutor, jornalista e publicitário. Estreou em livro com Catatau (1975), considerado um dos trabalhos mais ousados da literatura brasileira contemporânea.

Sua produção dialoga com a poesia breve – influenciada pelo haicai – e também com a música popular. O autor teve textos gravados por nomes como Caetano Veloso e Ney Matogrosso. Como tradutor, verteu para o português obras de escritores como James Joyce e Samuel Beckett.

A publicação da coletânea Toda Poesia, em 2013, ampliou o alcance de sua obra e consolidou seu nome entre os principais autores do século XX no Brasil.

Embora os manuscritos recém-recuperados não revelem textos inéditos finalizados, especialistas apontam que o material tem valor documental. Os registros expõem o percurso da escrita – cortes, revisões, ideias em trânsito – e ajudam a compreender os bastidores de uma obra que segue influente.

Mais do que curiosidade, o envelope esquecido transforma-se em peça de memória: um retrato bruto do instante em que a poesia ainda estava sendo construída, entre voos, rasuras e intuições.

RECENTES

MAIS NOTÍCIAS