
Reconhecida como a “capital do Reisado”, a cidade de Boa Hora, no Norte do Piauí, mantém viva uma das manifestações culturais mais tradicionais do estado. Com raízes seculares, o Reisado segue sendo transmitido de geração em geração e tem nas crianças e jovens um dos principais pilares para a preservação da tradição.
O historiador Caio Rezende explica que o envolvimento das novas gerações é fundamental para garantir a continuidade da manifestação. Segundo ele, a presença das crianças nos grupos assegura que o Reisado não se perca ao longo do tempo. “Onde há criança envolvida, a cultura permanece viva”, resume.
O Reisado é uma celebração ligada ao Dia de Santos Reis, comemorado em 6 de janeiro, e une elementos da fé católica à cultura popular. A tradição representa o anúncio do nascimento de Jesus Cristo, encenado de forma festiva, com música, dança e teatro a céu aberto. Em Boa Hora, os grupos percorrem as ruas e visitam casas da cidade, levando alegria e religiosidade à comunidade.
De origem europeia, o Reisado ganhou características próprias ao chegar ao Nordeste brasileiro. Em Boa Hora, os figurinos e adereços são confeccionados com materiais locais, como palha e couro, substituindo os trajes tradicionais europeus. Elementos do cotidiano nordestino foram incorporados à encenação, tornando a manifestação ainda mais representativa da identidade regional.
As apresentações costumam ocorrer entre o fim de dezembro e o Dia de Santos Reis. Alguns grupos iniciam os cortejos ainda no dia 31 de dezembro, enquanto outros começam no primeiro dia do ano. O encerramento acontece no dia 6 de janeiro, com o ritual simbólico conhecido como “morte do boi”.
Além do aspecto religioso, o Reisado tem forte impacto social e cultural. A tradição reúne famílias, atrai visitantes e movimenta a cidade durante o período festivo. Muitos moradores que vivem fora retornam a Boa Hora nesta época para participar das celebrações, fortalecendo os laços comunitários.
Entre os personagens do Reisado estão o boi, figura central da encenação, os caretas, que representam os três reis magos, o mandador, responsável por conduzir a apresentação por meio de versos rimados, além do sanfoneiro e das cantadeiras, que animam os cortejos e pedem licença para entrar e sair das casas visitadas.
Em Boa Hora, grande parte dos grupos é formada por pagadores de promessa. Há quem pague promessas recebendo o Reisado em casa e também quem participe diretamente das apresentações, tocando instrumentos ou acompanhando os grupos durante as madrugadas.
A cidade também realiza, há 26 anos, o Festival de Reisado, que vem ganhando visibilidade e reconhecimento além do estado. A programação inclui apresentações de diversos grupos e, mais recentemente, passou a contar com o “Festival dos Pubeirinhos”, voltado ao público infantil, com o objetivo de incentivar crianças a aprender, ensaiar e participar da tradição desde cedo.
Para quem vive o Reisado desde pequeno, a participação é motivo de orgulho. Crianças e jovens relatam a alegria de integrar os grupos, aprender a tocar instrumentos como a sanfona e acompanhar as apresentações noite adentro, reforçando o sentimento de pertencimento à cultura local.
Com fé, brincadeira e tradição, o Reisado segue como um dos principais símbolos culturais de Boa Hora, mantendo viva uma herança que atravessa gerações e continua a marcar a identidade do município.







