
© Nasa Earth Observatory/Reprodução
Em uma planície árida e desolada do interior da Austrália, há uma figura colossal esculpida na terra. De braços erguidos, prestes a arremessar uma lança ou um bumerangue, o chamado Homem de Marree – ou Marree Man, em inglês – é um dos maiores geoglifos já encontrados. E, quase três décadas após seu aparecimento repentino, ninguém sabe ao certo quem o criou.
Mas o que mais intriga cientistas, autoridades e moradores é como – e por quem – uma figura tão gigantesca foi criada sem que ninguém percebesse.
Um surgimento repentino
De acordo com imagens de satélite analisadas pela Nasa, o geoglifo surgiu em um intervalo de apenas 16 dias, entre 27 de maio e 12 de junho de 1998. Até então, não havia qualquer sinal de perturbação na região. Para traçar com tamanha precisão as curvas e proporções do desenho, seria necessário o uso de maquinário pesado e, possivelmente, de GPS – algo ainda incomum no interior australiano da época.
Os yankees tinham uma base aérea próxima de Woomera, onde operavam técnicos dos Estados Unidos. A teoria ganhou força quando uma pequena placa com a bandeira americana foi encontrada próxima à cabeça do geoglifo.
Faz algum sentido: o GPS foi desenvolvido pela Marinha dos EUA nos anos 1960 para orientar submarinos. Na década de 1970, o Departamento de Defesa criou o sistema Navstar, com 24 satélites, de uso militar. Nos anos 1980, o governo liberou o uso civil, mas com precisão reduzida para que o aparelho não fosse usado para fins militares (tal como o governo usava). Somente nos anos 1990 essa limitação foi retirada, tornando o GPS mais preciso e acessível ao público.
Outros suspeitos surgiram. O nome mais citado é o do artista de Adelaide Bardius Goldberg, conhecido por suas obras de grande escala. Amigos próximos afirmaram que ele se gabou, em conversas particulares, de ser o autor do Homem de Marree. Mas Goldberg nunca admitiu publicamente a autoria e morreu em 2002, levando o segredo consigo.
Em 2018, o empresário e explorador Dick Smith ofereceu uma recompensa de 5 mil dólares australianos a quem fornecesse informações concretas sobre a origem da figura. Ninguém jamais se apresentou.
O renascimento do gigante
Com o tempo, o vento e a erosão quase apagaram o colosso do deserto. Em 2016, moradores locais decidiram restaurá-lo. Utilizando escavadeiras e sistemas modernos de GPS, reabriram os sulcos – desta vez com cerca de 25 centímetros de profundidade – e criaram canais laterais capazes de reter água da chuva, permitindo que a vegetação cresça ao longo das bordas. O resultado: um contorno mais verde e duradouro visível até hoje em imagens de satélite.
A operação levou 60 horas de trabalho e revelou 250 estacas de bambu alinhadas ao redor do perímetro, provavelmente usadas como marcadores na escavação original.
Na pequena cidade de Marree, onde vivem pouco mais de 150 pessoas, todos conhecem o gigante. Voos turísticos partem regularmente para sobrevoar o deserto e observar de cima o enigmático caçador – que se tornou um símbolo do isolamento e do mistério do outback australiano.
Phil Turner, dono de um pub local, comprou o Hotel Marree há sete anos, em parte devido à fama do Homem de Marree, contou à Australian Geographic. “Eu me deixei levar, como todo mundo, pelo mito, pelo mistério e pela intriga, pelo fato de não conseguirem encontrar os responsáveis”, diz ele. “O ‘Homem de Marree’ é uma grande atração, e isso influenciou nossa decisão de comprar o pub.”






