PUBLICIDADE

Falta de saneamento ainda expõe moradores a riscos à saúde em Teresina

MARIA LUISA vive há mais de 20 anos à beira de um esgoto no bairro Parque Afonso Gil ( Foto: Renato Bezerra)

A falta de esgotamento sanitário continua sendo uma das faces mais cruéis da desigualdade urbana em Teresina. Em diferentes bairros da capital, moradores convivem há décadas com galerias a céu aberto que recebem esgoto doméstico, lixo, entulho e até animais mortos. O resultado é um cotidiano marcado por doenças, acidentes, mau cheiro e medo — uma realidade que especialistas classificam como grave risco à saúde pública.

Enquanto dados oficiais apontam avanços na cobertura da rede de esgoto, a realidade dentro das comunidades revela que infraestrutura sem ligação efetiva, fiscalização e políticas públicas integradas não garante dignidade a quem vive à margem do sistema.

Dados da Águas de Teresina apontam que a capital do Piauí registrou um dos maiores avanços em saneamento do Nordeste. Desde 2017, já foram investidos mais de R$ 1,3 bilhão, com a universalização da água tratada na área urbana regular, modernização das Estações de Tratamento de Água (ETAs) Norte e Sul, perfuração de 137 poços e implantação de adutoras, boosters e novos sistemas de bombeamento.

Mais de 480 mil pessoas foram beneficiadas com a expansão da rede de esgoto. Em um ano, esse volume representa mais de 14 bilhões de litros de esgoto tratados. Atualmente, todas as zonas da cidade contam com bairros atendidos pela rede: são mais de 50 bairros com 100% de cobertura e outros 70 com atendimento parcial.

Apesar disso, milhares de teresinenses seguem convivendo com o esgoto a céu aberto.

Na Vila Parque Afonso Gil, a dona de casa Maria Luísa Nascimento da Silva vive há mais de 20 anos à beira de uma galeria que recebe esgoto de bairros inteiros, como Parque Piauí e Promorar.

“É horrível. Aqui mora quem não tem condição de morar em um lugar melhor. Se eu tivesse, não morava no meio de uma galeria dessas”, desabafa.

Segundo ela, o mau cheiro é constante e inviabiliza atividades simples do dia a dia. “Ninguém aqui sabe o que é almoçar tranquilo ou dormir em paz. É fedor dia e noite. Tudo cai aqui dentro.”

As consequências para a saúde são severas. Maria Luísa relata internações recorrentes. “Passei um mês inteiro internada. Tive pneumonia, dengue. Vinha pra casa, ficava dois ou três dias e piorava de novo.”

Maria Luísa afirma que insetos e animais peçonhentos fazem parte da rotina. Tem cobra, caranguejeira, rato, muriçoca. À noite, aparece caranguejeira dentro de casa. Rato, então, as pessoas não conseguem dormir.

Além do adoecimento, o risco de acidentes é constante. Para evitar passar dentro do esgoto, moradores improvisaram uma passarela. “Meu neto caiu dentro da galeria e abriu a testa. Já vi muita gente cair dentro do esgoto.”

Para quem mora na vila, no período chuvoso, a situação se agrava ainda mais.“Desce água, entulho, galho de árvore, lixo. Às vezes passa por cima da passarela improvisada. Aqui também jogam animais mortos”, denuncia.

ESGOTO que corta o Parque Afonso Gil tem causa problemas para população; acidente e doenças (Foto: Renato Bezerra)

“Só promessa”, denuncia comerciante

Ainda na Vila Parque Afonso Gil, a comerciante Lindalva Gomes Paixão, moradora da Rua Cardeal, denuncia abandono e riscos constantes provocados pelo esgoto a céu aberto que corta o bairro e passa, inclusive, por baixo de sua residência.

“É horrível. Ninguém cuida, ninguém olha. Só promessa”, afirma.

Segundo Lindalvaalva, o local é foco de doenças e acidentes. “É mosquito, rato, cheiro forte. Criança cai, idoso cai. Quem cai dentro da galeria se machuca, pega bactéria.”

Ela conta que já contraiu chikungunya, doença associada à proliferação de mosquitos em áreas sem saneamento.

Lindalva cobra respeito e dignidade. “Todo mundo tem direito ao saneamento básico. Nosso valor é o mesmo de qualquer outro cidadão.”

Saneamento é “vacina social”

Dra. ELNA AMARAL, afirma que não há dúvida que o saneamento é uma vacina social.

Para a médica infectologista Dra. Elna Amaral, a falta de esgotamento sanitário está entre os principais fatores de adoecimento por doenças infecciosas evitáveis.

“Saneamento envolve água tratada, esgoto corretamente destinado e coleta adequada de lixo. Isso é o mínimo para proteger a saúde”, explica.

Segundo a especialista, a ausência dessas condições favorece doenças como dengue, chikungunya, leptospirose, hepatite A, cólera, diarreias e gastroenterites.

Para a médica, não há dúvida: saneamento é uma vacina social.”

No consultório, a realidade sanitária faz parte do diagnóstico. “Perguntamos sobre água, esgoto e lixo. Isso ajuda a identificar a doença e a acionar a vigilância.”

Doutora Elna, ainda faz alerta para o impacto econômico da falta de saneamento. “Mais saneamento significa menos internações e menos pressão sobre o SUS.”

Muitos ainda não sabem os benefícios do esgotamento sanitário.

Maria de Deus, moradora do bairro Saci, zona Sul de Teresina, conta que que já se passaram meses desde a conclusão do serviço na região, e ela ainda não realizou a interligação do imóvel à rede. O principal motivo é o custo. “O pedreiro cobrou mais de dois mil reais para fazer a interligação, porque o cano tem que passar por dentro de casa dela e é muito caro”, explicou.

Outro ponto criticado é o aumento na tarifa. Ela disse que pagava taxa mínima de R$ 35 e se ligar vai pagar mais de R$ 80. Mais que o dobro. Dona Deusa reconhece apenas um possível benefício: o fim do custo com limpeza de fossa. “O único benefício é não pagar mais limpa-fossa. Fora isso, não vi vantagem nenhuma”, afirma.

A moradora afirma ainda que recebeu apenas a informação de que haverá prazo para interligação obrigatória e possibilidade de multa para quem não cumprir a determinação, mas diz não ter recebido orientações detalhadas sobre os benefícios do sistema.

Saneamento avança, mas ligação à rede ainda é o maior desafio

MAURO NASCIMENTO – estrutura ainda está subutilizada porque muitos imóveis não estão conectados ( Foto: Ascom)

Apesar dos avanços e da necessidade do esgotamento sanitário, muitos desconhecem os benefícios. De acordo com Mauro Nascimento, gerente de serviços da Águas de Teresina, o maior entrave atual é a ligação dos imóveis.

“Teresina saiu de menos de 20% de cobertura, em 2017, para quase 60% em 2024. Mas parte dessa estrutura ainda está subutilizada porque muitos imóveis não estão conectados.”

Mesmo com a rede passando em frente às residências, há moradores que continuam lançando esgoto em sarjetas e galerias, mantendo riscos sanitários e ambientais.

O esgoto a céu aberto, além de problema de saúde pública, é crime ambiental. A fiscalização é de responsabilidade do município.

Para incentivar a adesão, a taxa de ligação foi isentada por meio de acordo com a prefeitura. O morador tem até seis meses para se conectar sem custo. Após esse prazo, podem ocorrer cobranças.

A meta contratual é alcançar 90% de cobertura de esgotamento sanitário até 2033.

“Quando parte da população não se conecta, toda a cidade perde. Quando o sistema funciona, quem ganha é Teresina. ”

 

RECENTES

MAIS NOTÍCIAS