Erosão na Vila da Paz ameaça famílias e expõe abandono em área de risco


O avanço de uma erosão de grandes proporções na Vila da Paz, zona Sul de Teresina, escancarou a vulnerabilidade de dezenas de famílias que vivem às margens de uma galeria pluvial, em uma área marcada por ocupações irregulares e risco permanente de desabamento.

O problema, que comprometeu parte da via Uruçuí, vai além da infraestrutura urbana: revela uma crise social antiga, em que moradia precária, ausência de fiscalização e descarte inadequado de lixo se combinam para produzir tragédias anunciadas.

Moradores relatam que convivem há anos com o perigo. Casas construídas muito próximas à galeria seguem expostas ao avanço da erosão, enquanto crianças circulam diariamente em áreas onde o solo já apresenta sinais visíveis de instabilidade.

Entre os residentes está José Nascimento Mendes, que mora próximo ao canal e afirma permanecer no local por falta de alternativa habitacional. Ele reconhece que há residências em situação crítica, embora considere sua própria casa relativamente segura por estar assentada sobre terreno mais firme.

Superintendente de Desenvolvimento Urbano Sul (SDU Sul), Isaac Meneses

A erosão se agravou após o bueiro sob a avenida ficar completamente obstruído por lixo descartado irregularmente. Sofás, móveis e outros objetos volumosos foram retirados da galeria, segundo informou o superintendente da Superintendência de Desenvolvimento Urbano Sul (SDU Sul), Isaac Meneses. Com o bloqueio da passagem da água, houve infiltração no solo e o rompimento da estrutura viária, provocando o colapso parcial da pista.

“Retiramos materiais que impediram o fluxo normal da água. Sem vazão, ela infiltrou no terreno e passou por cima da via, provocando o desgaste que resultou na erosão”, explicou Isaac Meneses.

A prefeitura isolou o trecho afetado e iniciou uma contenção emergencial com sacarias de solo-cimento. A SDU Sul trabalha agora na recomposição do bueiro e das alas destruídas, com previsão de conclusão da obra entre 15 e 20 dias.

Mas o episódio expõe uma contradição urbana que há anos se repete em Teresina: famílias são empurradas para áreas impróprias, sem planejamento habitacional eficaz, e só entram no radar do poder público quando a ameaça já se tornou concreta. A ocupação de Áreas de Preservação Permanente (APPs), proibida por lei, cresce à sombra da falta de políticas preventivas, enquanto a resposta institucional costuma chegar apenas no estágio emergencial.

Isaac Meneses afirma que muitas casas estão erguidas em locais onde a legislação proíbe construções, justamente por serem áreas de drenagem e proteção ambiental. Segundo ele, não haverá adaptação das galerias para manter moradores nesses espaços.

“Essas pessoas estão em áreas inadequadas e perigosas. Não é possível urbanizar locais ilegais para permanência de moradias. Nosso papel é preservar vidas”, afirmou.

A prefeitura informou que já existe planejamento para remoção gradual das famílias instaladas nas áreas mais críticas. Casos emergenciais deverão ser priorizados em programas habitacionais, como o Minha Casa Minha Vida, sem necessidade de sorteio. Outras situações poderão receber indenização ou reassentamento. Após a retirada, as moradias demolidas não poderão ser reocupadas.

Outro ponto crítico levantado pela gestão municipal é o descarte irregular de resíduos sólidos, apontado como causa direta do agravamento da erosão. A prefeitura reforça que a obstrução da galeria poderia ter sido evitada se houvesse descarte correto do lixo.

Na Vila da Paz, a terra que cedeu sob o asfalto expõe mais do que falhas na drenagem: revela o peso de uma urbanização desigual, onde famílias pobres seguem vivendo no limite entre o abandono e o colapso, enquanto soluções definitivas continuam chegando tarde demais.

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