
O Brasil amanheceu hoje com uma cena improvável até para quem conhece a elasticidade do nosso realismo político: Jair Bolsonaro preso. Não por perseguição, não por conspiração internacional, não porque “a esquerda está no poder”, mas porque a lei, quando finalmente se liberta dos grilhões da seletividade, mostra que também sabe escalar o Planalto.
Durante anos, parte da classe política brasileira repetiu bordões punitivistas com a mesma facilidade com que negava humanidade aos outros. “Bandido bom é bandido morto”, dizia Bolsonaro. “O sistema prisional de El Salvador é exemplo”, proclamava seu filho, encantado com celas superlotadas e direitos humanos trancados para fora. “Bandido bom é bandido preso”, repetiu, há poucos dias, o governador Tarcísio de Freitas.
Pois bem. O bordão voltou para cobrar coerência.
Só que agora, o “bandido preso” não é o jovem negro que eles gostam de exibir nas capas de jornais. É o ex-presidente que por anos sabotou instituições, atacou minorias, desmontou políticas públicas e debochou das garantias constitucionais que hoje, ironicamente, são seu único patrimônio.
E é justamente aqui que entra o ponto essencial, aquele que nós, os tão incomodativos defensores dos direitos humanos, nunca deixamos de repetir: direitos humanos são para todos. Inclusive para quem tentou destruí-los. Inclusivo para quem os ridicularizou. Inclusive para quem sonhou com o fim da democracia.
A prisão de Bolsonaro expõe algo mais profundo do que sua biografia política. Expõe o quanto o Brasil precisa encarar o abismo moral que construiu ao longo de séculos. Um país que sempre usou a palavra “justiça” para punir os de baixo e proteger os de cima não pode continuar fingindo que bordões de campanha são políticas públicas. O que está em jogo hoje não é comemoração, revanche ou espetáculo. O que está em jogo é a chance de o Brasil finalmente romper com o ciclo da violência institucional que escolhe alvos pela cor, pelo CEP e pela classe.
Não se trata de desejar a prisão de ninguém. Trata-se de desejar algo muito maior: um país que respeite a Constituição que jurou defender.
E é aqui que a história faz sua curva mais bonita. Quando eles gritam “bandido bom é bandido preso”, nós respondemos: direitos humanos para todos. Justiça sem espetáculo. Estado sem vingança. Democracia sem seletividade. É essa diferença que separa o autoritarismo da civilidade. O ódio do projeto de país. A violência do Estado de Direito.
Se o país quer virar a página, não será com a lógica do inimigo interno, nem com aplauso à truculência, nem com modelos penitenciários que transformam seres humanos em resíduos. Será com compromisso, coragem institucional e uma profunda disposição social para dizer, sem medo: ninguém está acima da lei, mas ninguém está abaixo da dignidade.
Hoje, justamente hoje, o Brasil tem a chance de entender que os direitos humanos que Bolsonaro negou são os mesmos que agora garantem sua vida, sua integridade e seu devido processo legal. Essa é a prova viva de que defender direitos humanos nunca foi sobre proteger “bandidos”. Foi sempre sobre proteger o país do autoritarismo.
Eles dizem “bandido bom é bandido preso”. Nós dizemos e seguiremos dizendo: direitos humanos para todos. Porque só assim o Brasil deixa de repetir suas tragédias e começa, enfim, a escrever sua própria história de justiça.






