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Dando Pitaco: Entre trends e filtros, Teresina continua abandonada

Eu fico stakeando — no sentido mais moderno do verbo: observando, acompanhando, rolando o feed — alguns perfis de vereadores de Teresina. E confesso: se a cidade fosse do jeito que aparece no Instagram deles, Teresina seria uma espécie de Dubai do Meio-Norte, limpa, organizada, funcional e cheia de eventos.

Mas aí a gente fecha o aplicativo e abre a porta de casa.

A cidade real continua ali, firme e forte: lixo espalhado, UBS fechadas, falta de remédio, transporte coletivo em colapso. Quer tirar a prova? Dá uma volta no bairro São Pedro, na zona Sul. Não precisa nem ir longe. É só ir. Se ainda achar que é exagero, passa na UBS Carolina Silva, ali perto do Santa Fé. Se tiver remédio, equipamento funcionando e atendimento digno, pode avisar — vai ser notícia.

O transporte coletivo então… a população já nem cobra mais. É malhar em ferro frio, como diz o ditado. O próprio prefeito já admitiu que não sabe como resolver. Os empresários dizem que não tem passageiro. O passageiro diz que não tem ônibus. E no meio disso tudo, quem paga a conta é quem depende do sistema pra trabalhar.

Enquanto isso, no Instagram…

Os vereadores trabalham muito. Pelo menos no feed.

Ali não tem buraco, não tem lixo, não tem UBS sem médico. Tem trend. Tem vídeo com música do momento. Tem legenda motivacional. Tem sorriso, corrida, festa, família, militância ideológica e opinião forte — tudo, menos a cidade real.

Fui dar uma olhada mais atenta:

  • Lucy Soares: o perfil parece mais um álbum de família. Bonito, organizado, afetivo. Só fica a dúvida: em que momento isso vira política pública?
  • Samantha Cavalca: o feed é quase um palanque permanente de ódio. Muito ataque, pouca solução. A cidade vira pano de fundo para a guerra ideológica.
  • Pedro Alcântara: militância intensa contra o PT. Os problemas de Teresina? Esses parecem ter ficado esquecidos no caminho.
  • Fernanda Gomes: festa, corrida, eventos. Vida ativa, agenda cheia — mas trabalho legislativo mesmo aparece pouco.
  • Petrus Evelin e João Pereira: entre tantos perfis, ainda foram os que deixaram aparecer algo mais próximo de serviço prestado, de atuação concreta para a cidade.

Claro, não vi todos. E também é claro que o Instagram não mostra tudo. Mas ele mostra exatamente o que cada um quer que a gente veja. E isso diz muito.

No fim das contas, Teresina virou uma cidade com dois cenários:

  • a Teresina do feed, bonita, editada, com filtro e música;
  • e a Teresina real, onde falta o básico.

E enquanto os problemas seguem sem solução, o algoritmo segue sendo alimentado.

Porque, pelo visto, hoje em dia, governar dá menos engajamento do que postar.

Por Renato Bezerra
Jornalista

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