Composto alucinógeno presente em alguns tipos de cogumelos, a psilocibina tem potencial para tratar transtornos obsessivo-compulsivos (TOC) e condições associadas. Uma revisão de 13 estudos clínicos e pré-clínicos, financiada pelo Conselho Nacional de Saúde da Austrália, constatou que doses únicas da substância reduziram de forma rápida e duradoura os sintomas de compulsão, tanto em pacientes humanos quanto em modelos animais geneticamente modificados. A pesquisa foi publicada na revista Psychedelics.
“Os resultados convergem para um mesmo ponto: a psilocibina exerce efeitos anticompulsivos robustos e sustentados, muitas vezes após uma única administração”, resume o neurocientista James Gattuso, autor principal do estudo e pesquisador do Instituto Florey de Neurociência e Saúde Mental da Universidade de Melbourne. A revisão inclui tanto experimentos clínicos com pacientes diagnosticados com TOC e transtorno dismórfico corporal quanto estudos em camundongos com comportamentos compulsivos validados em laboratório.
Consistência

Entre os quatro ensaios clínicos incluídos na revisão, os resultados foram consistentes: melhora expressiva dos sintomas obsessivo-compulsivos em poucos dias, dizem os autores. O primeiro estudo tem quase duas décadas: conduzido em 2006 por Francisco Moreno, da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, aplicou doses orais crescentes de psilocibina em nove pacientes com TOC resistente ao tratamento. As reduções nos escores da Escala Yale-Brown — padrão para medir a gravidade do transtorno — variaram de 23% a 100% nas horas seguintes à administração.
Uma dose única de 25mg de psilocibina levou à redução significativa e duradoura dos sintomas por até 12 semanas. Sete dos 12 participantes responderam ao tratamento, e quatro entraram em remissão completa. “O padrão de melhora sugere que o efeito da psilocibina não se restringe a um diagnóstico específico, mas pode beneficiar todo o espectro obsessivo-compulsivo”, comenta Frank Schneier.
Em outro estudo, de base populacional, 135 pessoas diagnosticadas com TOC relataram melhora subjetiva após consumir cogumelos contendo psilocibina. Cerca de 30% afirmaram que os benefícios persistiram por mais de três meses, especialmente entre os que haviam feito uso repetido da substância. Para os autores da revisão, os relatos indicam que esquemas de microdosagem ou doses repetidas merecem mais investigações, pois parecem promissores.
Mecanismo
Se nos pacientes humanos os resultados já são animadores, nos laboratórios as descobertas são ainda mais intrigantes, disseram os autores. A revisão destaca experimentos com camundongos geneticamente modificados, conhecidos como SAPAP3 knockout, modelo validado para o estudo do TOC. Esses animais exibem comportamentos de autolimpeza excessiva, chegando a causar ferimentos na pele — um paralelo à compulsão em humanos.
O efeito não se limitou à redução de comportamentos compulsivos. Em alguns estudos, observou-se também aumento da densidade de espinhas dendríticas — pequenas projeções neuronais que formam conexões sinápticas — e elevação na expressão de proteínas associadas à neuroplasticidade, sugerindo que a psilocibina pode remodelar circuitos cerebrais anormais ligados ao TOC.
Bloqueio
Embora a psilocibina atue principalmente como agonista do receptor 5-HT2A da serotonina — o mesmo responsável por seus efeitos psicodélicos —, a revisão aponta que os efeitos anticompulsivos podem ocorrer mesmo quando esse receptor é bloqueado. Em modelos animais, o uso de antagonistas seletivos não impediu a melhora comportamental. Isso sugere que a substância pode agir por vias neuroplásticas alternativas, talvez modulando outros receptores de serotonina (como 5-HT2C) ou ativando cascatas moleculares associadas ao fator neurotrófico BDNF.
Essa descoberta abre um campo de pesquisa promissor, diz o líder do estudo, pois análogos não alucinógenos da psilocibina, como a 1-metilpsilocina, reduziram comportamentos repetitivos em roedores sem induzir efeitos psicodélicos. “Se conseguirmos separar a experiência alucinógena do efeito terapêutico, será possível desenvolver medicamentos seguros, eficazes e acessíveis”, afirma Gattuso.
correioweb






