Cadeira nº 3 da APLJ reúne legado de formação intelectual e pensamento jurídico no Piauí

A Academia Piauiense de Letras Jurídicas (APLJ) destaca, na série dedicada aos patronos de suas cadeiras, a trajetória de Clemente Honório Parentes Fortes, nome que inspira a Cadeira nº 3. O espaço é atualmente ocupado por Filadelfo Chagas Barreto e teve como primeiro titular Balduíno Barbosa de Deus, consolidando uma linha de continuidade marcada pelo compromisso com o saber jurídico e a formação intelectual no estado.

Nascido em Teresina, em 30 de agosto de 1914, e falecido na mesma cidade em 24 de dezembro de 1974, Clemente Honório Parentes Fortes construiu uma trajetória que atravessa o Direito, a educação e o pensamento humanista. Advogado de formação, destacou-se desde os primeiros anos acadêmicos. Em registro publicado no Diário Oficial do Estado do Piauhy, por ocasião de sua colação de grau em 1936, foi descrito como “possuidor de uma vasta intellectualidade, e cujo talento sempre o distinguiu dentre seus companheiros de academia”.

Sua atuação no magistério o colocou entre os nomes de referência do ensino no Piauí. Foi professor catedrático de Língua Portuguesa no Liceu Piauiense e exerceu papel decisivo na estruturação do ensino superior ao dirigir a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Também esteve à frente da Faculdade Católica de Teresina, contribuindo para a organização acadêmica em um período de consolidação institucional.

Os registros reunidos nos Cadernos de Teresina (1994) revelam um intelectual de pensamento ativo e crítico. Clemente Fortes não se limitava à prática docente: refletia sobre o papel do Direito na sociedade e sobre os rumos da educação brasileira. Ao tratar da evolução das normas jurídicas, advertia que o “individualismo jurídico […] não pode resistir ao esforço de integração de novos direitos do homem”.

Sua concepção de ensino também se expressava com clareza em seus próprios discursos:

“Para quem não tem sido mais que um dador de aulas, e com esta missão se sente plenamente satisfeito…”

A frase, extraída de seus escritos, não é apenas retórica – é crítica direta a uma prática docente esvaziada de propósito. Para ele, ensinar exigia mais do que transmitir conteúdos: implicava formar pensamento, provocar inquietação e construir consciência.

Sua formação dialogava com a tradição humanista. Leitor de autores como Machado de Assis, Manuel Bandeira e clássicos europeus, além de apreciador de música erudita, Clemente Fortes transitava entre o Direito, a literatura e a filosofia, integrando o perfil do intelectual de sua época.

A revista também evidencia tensões que marcaram seu pensamento. Inserido em um contexto de forte influência religiosa, vivia o diálogo entre a tradição católica e uma postura crítica diante das estruturas sociais e institucionais. Essa dualidade revela um intelectual atento ao seu tempo, capaz de refletir sem simplificações.

Oriundo de família humilde, construiu sua trajetória a partir do estudo e do trabalho, chegando ao ensino superior por mérito próprio. Ainda jovem, precisou contribuir para o sustento familiar, experiência que se refletiria em sua sensibilidade social.

Eleito para a Academia Piauiense de Letras, não chegou a tomar posse, permanecendo, ainda assim, como um nome reconhecido no cenário intelectual do estado.

Ao homenagear Clemente Honório Parentes Fortes como patrono da Cadeira nº 3, a APLJ reafirma seu compromisso com a preservação da memória de juristas que contribuíram não apenas para o exercício do Direito, mas para a formação do pensamento e das instituições no Piauí. Seu legado permanece como expressão de rigor intelectual, consciência crítica e dedicação ao ensino.

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