Nascida em 7 de agosto de 1860, no município de Jerumenha, ao sul do Piauí, Amélia Carolina de Freitas Beviláqua construiu uma das trajetórias mais notáveis da literatura brasileira no início do século XX. Escritora, advogada, jornalista, crítica literária e ativista dos direitos da mulher, Amélia foi a primeira mulher a candidatar-se a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, em 1930 — num tempo em que o regulamento da instituição sequer previa a presença feminina entre os imortais.
A candidatura não foi aceita, mas o gesto marcou a história. Mulher de pensamento forte, dona de uma escrita elegante e inquieta, Amélia desafiou as barreiras sociais impostas às mulheres do seu tempo e ajudou a abrir caminho para outras vozes femininas no cenário literário brasileiro.
Instalada ainda criança em São Luís (MA), e depois no Recife e no Rio de Janeiro, foi nas grandes cidades que sua produção intelectual floresceu. Publicou romances, ensaios e livros didáticos, além de colaborar com diversos periódicos da época. Foi também redatora-chefe da revista O Lyrio, publicação pernambucana escrita exclusivamente por mulheres e dedicada à literatura, educação e crítica social.
Entre suas obras estão títulos como Alcyone (1902), Através da Vida (1906), Vesta (1908), Angústia (1913), Jeannette (1923), Flor do Orfanato (1931) e Alma Universal (1935). Os temas giram entre a introspecção feminina, as injustiças sociais e a afirmação do sujeito feminino na vida pública.
Amélia casou-se com o jurista Clóvis Beviláqua, autor do Código Civil Brasileiro de 1916. Os dois formaram um casal intelectual raro para a época, unidos não apenas por laços conjugais, mas por um profundo respeito mútuo à produção literária e científica de ambos.
Apesar de ser pouco lembrada fora dos meios acadêmicos e literários, seu nome está registrado na história do Piauí como a primeira ocupante da cadeira nº 23 da Academia Piauiense de Letras, fundada em 1917. E sua luta pela presença feminina nas instituições culturais ecoa até hoje.
Para a professora Fides Angélica Ommati, atual presidente da APL e primeira mulher a ocupar esse cargo na história da instituição, o legado de Amélia é não apenas literário, mas profundamente político:
“Amélia Beviláqua nos inspira não apenas como escritora de grande valor, mas como mulher que enfrentou a exclusão institucional com altivez. A Academia Brasileira de Letras não a recebeu, mas a história sim. Ela pertence à memória das que ousaram antes do tempo.”
Ainda hoje, 165 anos após seu nascimento, o nome de Amélia Beviláqua segue à frente — como quem abre portas. E talvez essa seja a forma mais legítima de eternidade: ser lembrada como aquela que não aceitou o lugar imposto, mas criou seu próprio lugar na história.