
James Dewey Watson, um dos descobridores da estrutura do DNA, morreu na quinta-feira (6/11), aos 97 anos, em Nova York. A morte foi divulgada na sexta-feira (7/11) pelo Laboratório Cold Spring Harbor e confirmada por um dos filhos do cientista, Duncan James. Ele contou que o pai estava em uma casa de cuidados paliativos. O trabalho de Watson, desenvolvido ao lado de Francis Crick e Maurice Wilkins, garantiu ao trio o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina, em 1962. A genialidade incontestável de Watson, no entanto, acabaria arranhada décadas mais tarde após uma série de declarações racistas e sexistas do norte-americano.
Em 1951, o jovem pesquisador foi trabalhar no Cavendish Laboratory, em Cambridge, na Inglaterra. Foi ali que conheceu Francis Crick, com quem formou uma parceria que mudaria a ciência. Enquanto muitos pesquisadores tentavam desvendar a estrutura do DNA sem sucesso, Watson e Crick combinaram conhecimentos da biologia e da física para resolver o quebra-cabeça. O passo decisivo veio com os dados obtidos a partir de imagens de raios-x produzidas por Rosalind Franklin, do King’s College London, cuja famosa “Fotografia 51” revelou detalhes cruciais da molécula.
Em 1953, Watson e Crick publicaram na revista Nature e apresentaram ao mundo o modelo da dupla hélice do DNA, duas fitas entrelaçadas e unidas por pares de bases complementares. Com essa estrutura foi possível detalhar como o material genético é copiado e transmitido entre gerações, abrindo caminhos para a engenharia genética.
O reconhecimento veio em 1962, quando Watson, Crick e Maurice Wilkins receberam o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina. Rosalind Franklin, cuja contribuição foi fundamental, morreu quatro anos antes. À época da premiação, Watson, com 34 anos, se tornou uma celebridade no mundo científico e símbolo da nova era da genética.
Polêmicas
Durante as décadas seguintes, ele seguiu uma carreira acadêmica de prestígio, se tornou diretor do Cold Spring Harbor Laboratory, em Nova York, e liderou as discussões iniciais do Projeto Genoma Humano. Em 2007, em uma entrevista ao The Sunday Times, Watson afirmou que era “inquietante” acreditar que as políticas de ajuda à África pudessem funcionar, porque, segundo ele, “as pessoas negras não têm a mesma inteligência que as brancas”.
Ele disse ainda que “todas as provas apontam para o fato de que a inteligência não é igual entre as diferentes populações”. A repercussão foi imediata: universidades e instituições científicas repudiaram as falas, e Watson foi afastado de suas funções no Cold Spring Harbor Laboratory, onde era diretor emérito.
Ao longo da carreira, Watson também fez comentários considerados sexistas e homofóbicos. Sugeriu que mulheres não eram tão ambiciosas quanto os homens na ciência, insinuou que a aparência feminina influenciava o sucesso profissional e chegou a dizer que, se fosse possível identificar genes ligados à homossexualidade, os pais deveriam poder “corrigi-los” nos filhos.
Em 2014, voltou às manchetes ao anunciar que venderia sua medalha do Prêmio Nobel, sendo o primeiro laureado vivo a fazê-lo. Alegou que foi “ostracizado” pela comunidade científica e queria arrecadar fundos para apoiar pesquisas e doações. A medalha foi leiloada, e arrematada por US$ 4,1 milhões pelo bilionário russo Alisher Usmanov, que depois devolveu o prêmio, dizendo que ele “merecia mantê-lo”.
Com a morte de Francis Crick e Maurice Wilkins em 2004, James Watson era o último sobrevivente entre os ganhadores do Nobel pela descoberta da estrutura do DNA. Após as polêmicas, viveu afastado da vida pública e isolado das instituições científicas.
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