
No mês do Abril Azul, dedicado à conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o neuropediatra José Salomão Schwarzman reacendeu um debate necessário sobre ciência, diagnóstico e políticas públicas no país. Em entrevista ao Roda Viva, ele destacou que, apesar dos avanços no conhecimento sobre o autismo, o Brasil ainda enfrenta lacunas profundas na identificação e no atendimento das pessoas autistas.
Segundo o especialista, o autismo é um transtorno neurobiológico, afastando definitivamente teorias ultrapassadas que responsabilizavam o ambiente familiar. O diagnóstico exige a presença de dificuldades na comunicação social, comportamentos repetitivos e alterações sensoriais, dentro de um conceito que evoluiu ao longo das décadas e hoje é compreendido como um espectro – abrangendo desde quadros leves até condições que demandam alto nível de suporte.
O aumento expressivo no número de diagnósticos também foi destacado. O índice, que antes era de 4 em cada 10 mil crianças, atualmente gira em torno de 1 para cada 31. Para Schwarzman, esse crescimento resulta de múltiplos fatores, com destaque para a ampliação dos critérios diagnósticos. Há ainda influência genética predominante e possíveis fatores ambientais, como uso de certos medicamentos na gestação, idade parental avançada e condições maternas, embora nenhuma causa isolada explique o fenômeno.
No campo da desinformação, o neuropediatra foi categórico ao refutar a associação entre vacinas e autismo, classificando a ideia como falsa e perigosa. Ele também alertou para a circulação de tratamentos sem comprovação científica, amplamente divulgados nas redes sociais, que acabam explorando a vulnerabilidade de famílias em busca de respostas.
O diagnóstico do TEA, no entanto, segue sendo um dos maiores desafios. Não existem exames laboratoriais capazes de confirmar a condição, o que torna o processo dependente da avaliação clínica. Essa característica, aliada à formação insuficiente de muitos profissionais de saúde, contribui para diagnósticos imprecisos e atrasos na intervenção. No Brasil, a desigualdade social também impacta esse cenário, com menor acesso ao diagnóstico entre populações negras e de baixa renda.
Outro ponto abordado foi o subdiagnóstico em mulheres. Segundo o especialista, muitas conseguem mascarar comportamentos ao longo da vida, o que leva a diagnósticos tardios e, frequentemente, a sofrimento emocional acumulado.
Schwarzman também fez um alerta sobre o uso excessivo de telas na infância. De acordo com ele, a exposição prolongada pode causar atrasos no desenvolvimento que se assemelham ao autismo, mas que podem ser revertidos com intervenção adequada. A recomendação é evitar telas em crianças pequenas e limitar o uso nos primeiros anos de vida.
No que diz respeito ao tratamento, o cenário é considerado desigual. Os custos podem variar de R$ 2 mil a R$ 50 mil mensais, tornando o acesso restrito. No sistema público, a oferta ainda é limitada. O especialista defende terapias baseadas em evidências, como a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), mas alerta para a necessidade de formação adequada dos profissionais para evitar práticas inadequadas.
Na educação, ele avalia que o modelo de inclusão ainda não atende às necessidades reais dos alunos com autismo. Falta estrutura, capacitação docente e adaptação curricular. Para o especialista, é necessário avançar em estratégias que considerem as particularidades de cada indivíduo.
Apesar das críticas, Schwarzman reforça a importância de um olhar mais amplo sobre o autismo. Para além das dificuldades, ele destaca potencialidades como memória, foco e habilidades específicas. Em meio ao Abril Azul, a reflexão ganha urgência: mais do que ampliar diagnósticos, é preciso qualificar o cuidado, combater a desinformação e garantir políticas públicas que realmente alcancem quem precisa.

