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A Política precisa ouvir quem vai herdar o futuro

Nas escolas, nas ruas, nos debates: juventude tem voz e tem projeto.

Eles são maioria no eleitorado, conectados às redes e cada vez mais conscientes de suas pautas. Mas, apesar disso, os jovens ainda enfrentam barreiras para ocupar espaços de decisão política no Brasil. Por que a política ainda resiste em ouvi-los?

A estudante de Ciências Sociais Letícia Souza, 21 anos, nunca pensou em se candidatar a um cargo político. “A política institucional sempre me pareceu distante, cheia de regras feitas para excluir quem pensa diferente”, afirma. Mesmo assim, ela é uma liderança ativa no movimento estudantil e participa de coletivos feministas e antirracistas em Teresina (PI). Letícia é parte de uma geração de jovens que, embora não se veja representada nos partidos tradicionais, se mobiliza por transformações sociais e quer ser ouvida.

Essa desconexão entre juventude e política institucional tem sido uma das principais preocupações de especialistas em democracia. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nas eleições de 2022, o Brasil teve mais de 16 milhões de eleitores entre 16 e 24 anos, cerca de 11% do eleitorado. No entanto, menos de 2% dos candidatos a cargos legislativos estavam nessa faixa etária.

Representatividade ainda tímida

A socióloga Mariana Cunha, pesquisadora do Instituto de Estudos Políticos da UFRJ, explica que o sistema político brasileiro ainda impõe obstáculos concretos à participação jovem. “Falta financiamento, visibilidade e abertura dentro dos partidos. Além disso, existe um preconceito geracional muito forte: jovens são frequentemente desqualificados como inexperientes ou idealistas demais”, analisa.

A pouca presença de jovens no poder também tem efeitos práticos. “Quando não há jovens nos espaços de decisão, pautas urgentes como educação pública, meio ambiente, saúde mental e tecnologia acabam sendo negligenciadas”, acrescenta Mariana.

Juventude que age dentro e fora das urnas

Se por um lado os jovens ainda são minoria nas cadeiras do Congresso, por outro, estão criando novas formas de fazer política. Movimentos como o Engaja Mundo, o Levante Popular da Juventude e coletivos como o Perifa Connection têm promovido debates, ocupações culturais, ações ambientais e campanhas de conscientização nas redes.

“Não é que os jovens sejam apáticos; eles só estão se organizando de formas diferentes”, diz João Vítor Ferreira, 25, que participou do movimento que levou à criação do Parlamento Jovem em Belo Horizonte. “A gente quer participar, mas precisa de um espaço onde nossa voz não seja só decorativa.”

A socióloga Mariana lembra que é necessário distinguir desinteresse de desencanto: “O jovem brasileiro não está alienado — ele está cansado de ser tratado como um eleitor menor, quando, na verdade, está herdando um país com sérios desafios democráticos”.

A força das redes e da educação política

Para muitos jovens, o primeiro contato com temas políticos acontece nas redes sociais. Isso pode ser um caminho para o engajamento — ou para a desinformação. Por isso, especialistas reforçam a importância de políticas de educação para a cidadania desde o ensino básico.

O professor Daniel Mesquita, que coordena um projeto de formação política em escolas públicas do Ceará, destaca: “A escola precisa ser um espaço onde os jovens se reconheçam como sujeitos políticos. Não basta falar de democracia nas aulas de História se o estudante não sente que tem voz no presente.”

O futuro já começou

Na última eleição municipal, cidades como São Paulo, Recife e Belém elegeram vereadores jovens, muitos com pautas progressistas e ampla atuação digital. É uma sinalização de que mudanças estão em curso, embora ainda lentas.

Para Letícia Souza, do início da reportagem, é fundamental que os espaços políticos passem por uma renovação estrutural. “A gente quer mais do que ser ouvida. Queremos decidir, construir, governar. Porque o futuro já está nas nossas mãos — e precisamos agir agora.”

• 11% do eleitorado brasileiro em 2022 tinha entre 16 e 24 anos.

• Apenas 1,8% dos candidatos a deputado federal em 2022 tinham menos de 30 anos.

• Segundo o IBGE, o Brasil tem mais de 47 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos.

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