A jaca que apodrece no Brasil vale R$ 1.120 em Londres

No mercado mais famoso de Londres, uma jaca chegou a ser vendida por 160 libras. Isso equivalia a mais de R$ 1.120 por uma única fruta. Assim, a foto viralizou nas redes sociais com mais de 100 mil compartilhamentos e trouxe uma pergunta incômoda: como um fruto que apodrece nas calçadas brasileiras pode valer tanto do outro lado do mundo?

A fruta que o Brasil desperdiça enquanto o mundo paga caro

A maior fruta do mundo virou febre vegana global, chega a custar uma fortuna na Europa e nos EUA, e o Brasil, um dos maiores produtores do planeta, ainda joga quase 70% da colheita fora

No Brasil, a jaca aparece às pencas nas feiras, vende por menos de R$ 5 e, muitas vezes, apodrece na rua sem que ninguém colha. Nos supermercados europeus e americanos, ela ocupa uma posição completamente diferente: a de produto exótico, raro e com alto valor agregado.

O problema é estrutural. O Brasil figura entre os maiores produtores mundiais da fruta, mas desperdiça a maior parte do potencial de negócio. No entanto, a jaca sequer aparece no monitoramento de exportações do Ministério da Agricultura. O país produz em escala, mas não organiza a cadeia. O fruto sobra, apodrece e não gera renda.

Agricultores perdem cerca de 70% da produção porque a fruta amadurece rápido e estraga com facilidade. Para o produtor rural, esse número representa dinheiro que vai literalmente para o chão. Vale lembrar que a jaqueira é perene, bem adaptada ao clima brasileiro e exige pouco manejo. Agricultores do Paraná relatam que uma única árvore gera até R$ 500 por colheita, com pés de 40 ou 50 anos ainda produzindo regularmente. O potencial está ali. O que falta é organização.

A ascensão da jaca nos mercados ocidentais não é coincidência. Ela aconteceu junto com o crescimento do veganismo e a busca por alternativas sustentáveis à carne. Quando cozida, a jaca verde apresenta textura próxima à da carne bovina e suína, rivalizando com tofu, quorn e seitan. No Reino Unido, 3,5 milhões de pessoas seguem dieta vegana. Esse público busca ativamente proteína vegetal com aparência e textura de carne.

Nos EUA, supermercados já vendem linguiça, nuggets e almôndegas feitos à base de jaca verde. No Tocantins, uma startup de processamento comercializa produtos derivados da fruta em lojas de alimentos naturais, emprega pessoas da comunidade e fortalece pequenos agricultores. São iniciativas pontuais, mas que mostram que o caminho existe.

O chef Isaías Neire, que trabalha com a fruta há anos, reforça que o potencial vai além do nicho vegano. “Faço moqueca, empadão, escondidinho, antepasto, risoto, fricassê, picadinho e até patê. As pessoas juram que não é jaca. É uma alternativa nutritiva e muito saborosa.”

O tamanho do mercado global que o Brasil ignora

O mercado global de jaca movimentou US$ 343,2 milhões em 2024. A projeção aponta crescimento de 6,7% ao ano até 2033, quando deve chegar a US$ 620,4 milhões. O Brasil tem condições de fornecer essa fruta em escala muito maior do que faz hoje.

Nos EUA, o preço da jaca fresca chegou a US$ 11,29 por quilograma em setembro de 2025. A diferença entre o que o agricultor brasileiro recebe e o que o consumidor paga em Nova York ou Londres é enorme.

O exemplo indiano mostra o que é possível. A The Jackfruit Company, empresa norte-americana, conectou mais de mil famílias de agricultores indianos a mais de 6 mil varejistas nos EUA. A fundadora Annie Ryu resume bem: “Tivemos que construir uma cadeia de suprimentos da fazenda ao mercado, antes inexistente, que hoje é líder mundial para a cultura milagrosa e massivamente subutilizada, a jaca. Estabelecemos parceria direta com milhares de pequenos proprietários, garantindo de 10 a 40% de sua renda anual.”

O que torna a logística tão difícil e o preço tão alto

O preço exorbitante na Europa tem explicação concreta. A jaca é altamente perecível, pesa até 40 quilos e não cabe em caixas padrão. Ninguém consegue identificar pelo lado de fora se a fruta está boa ou podre. Isso complica a logística e aumenta o risco para o importador.

O frete aéreo encarece ainda mais o produto. Fabricio Torres, dono da Torres Tropical BV, importadora de frutas exóticas sediada na Holanda, explica: “Muitas das frutas que chegam da Ásia e da América do Sul viajam em aviões de passageiros. As companhias aéreas buscam produtos de maior valor agregado. No caso da jaca, trata-se de um produto perecível e de nicho. O importador não compra em grandes volumes. Tudo isso afeta o preço final.”

Uma jaca em conserva custa cerca de três libras nos supermercados britânicos, mas o sabor não é o mesmo. Quem quer o produto fresco paga muito mais. Esse é o nicho com maior margem de valor.

O que falta para o Brasil ocupar o espaço que é seu

O Brasil tem clima, solo, tradição de cultivo e escala. O que falta é o que a Índia construiu: organização de cadeia, logística pós-colheita, processamento e acesso ao mercado externo.

O mercado global cresce e a demanda é real. Enquanto o produtor indiano retira entre 10% e 40% de sua renda anual da jaca, o brasileiro ainda assiste a fruta apodrecer no chão. Talvez seja hora de mudar isso.

Fonte: PORTAL-IG

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