
Uma forte onda de vendas atingiu o setor de tecnologia nos mercados globais, provocada pelo aumento dos temores em torno do avanço da inteligência artificial. Em apenas dois dias, empresas de software, semicondutores e serviços digitais perderam centenas de bilhões de dólares em valor de mercado, em um dos movimentos de liquidação mais intensos dos últimos tempos.
O impacto foi mais severo entre companhias de software. Um fundo negociado em bolsa que acompanha o desempenho do setor acumulou perdas expressivas ao longo da última semana, atingindo o menor patamar desde abril. Diferentemente de ciclos anteriores de queda, analistas apontam que o movimento atual não está ligado a uma bolha especulativa tradicional, mas ao receio de que a própria inteligência artificial passe a substituir produtos e serviços oferecidos por essas empresas.
O estopim para a reação do mercado foi o anúncio de uma nova ferramenta desenvolvida pela startup Anthropic, voltada para atividades jurídicas como análise e revisão de contratos. Embora o produto, isoladamente, não tenha sido considerado revolucionário, o lançamento ganhou relevância em um contexto de avanços acelerados da IA em áreas sensíveis, como desenvolvimento de software e automação de processos complexos.
Especialistas avaliam que o temor dos investidores é a expansão desse tipo de tecnologia para outros segmentos. Para analistas do mercado financeiro, os sinais recentes indicam que a promessa da inteligência artificial deixou o campo teórico e começou a se consolidar em aplicações práticas capazes de alterar modelos de negócio consolidados.
Resultados financeiros ampliam pressão
A instabilidade se agravou após a divulgação de balanços corporativos abaixo das expectativas. A Alphabet informou que os investimentos em inteligência artificial deverão ser maiores do que o inicialmente projetado, pressionando margens. Já a Arm Holdings apresentou estimativas de receita inferiores ao que o mercado esperava.
No setor de semicondutores, as quedas foram acentuadas. A AMD registrou recuo de 17,3 por cento, a maior desvalorização desde 2017, apesar de ter divulgado receitas acima das previsões. A Qualcomm caiu cerca de 9 por cento após projetar faturamento abaixo do consenso, citando dificuldades relacionadas à oferta global de chips de memória.
Outras empresas ligadas ao avanço da IA também sofreram perdas significativas. Papéis da Palantir, Oracle, Nvidia e Broadcom recuaram em meio à redução do apetite por risco, movimento que também afetou ativos digitais, como o bitcoin.
Reflexos fora dos Estados Unidos
A aversão ao risco se espalhou para outros mercados. Companhias europeias e asiáticas do setor de tecnologia registraram quedas, com impactos visíveis em bolsas da Coreia do Sul, Taiwan e Japão. Empresas de tecnologia da informação na Índia e grupos ligados a serviços financeiros também acompanharam o movimento de retração.
Apesar do cenário de correção, grandes companhias de software afirmaram não ter observado perda relevante de clientes associada diretamente ao avanço da inteligência artificial. Ainda assim, investidores passaram a reavaliar o setor com mais cautela, diante da possibilidade de uma disrupção mais rápida do que o previsto.
Para gestores de recursos, o mercado entrou em uma fase de ajuste e reposicionamento. A avaliação predominante é que o período de euforia deu lugar a uma análise mais seletiva, focada em identificar quais empresas serão capazes de sustentar seus modelos de negócio em um ambiente cada vez mais moldado pela inteligência artificial.





































