
Em um cenário em que mulheres negras ainda enfrentam barreiras estruturais para ocupar posições de criação no cinema brasileiro, um grupo de realizadoras do Piauí e Maranhão está construindo uma obra que desafia esse histórico de exclusão. A série ficcional “Entidade”, escrita coletivamente por cerca de dez mulheres negras, transforma pesquisa, ancestralidade e memória em narrativa audiovisual, reafirmando a presença dessas mulheres no centro das histórias.
O projeto surge no mês da Consciência Negra, mas reflete um processo contínuo de disputa por espaço. Segundo o estudo Cinemateca Negra, publicado em 2023, mais de 80% dos filmes dirigidos por cineastas negros foram produzidos depois de 2010, a maioria em formato de curta-metragem. A dificuldade de alcançar maior financiamento e prestígio ainda é marcante. Entre as mulheres negras, o cenário é mais restritivo: levantamento da Ancine identificou que apenas 2% dos roteiros de filmes comerciais lançados entre 2016 e 2019 foram escritos por mulheres negras.
É nesse contexto que nasce “Entidade”. Desde setembro de 2024, as roteiristas se dedicam ao estudo de personagens inspiradas em mulheres negras que marcaram a história do Brasil, entre elas Esperança Garcia, Beatriz Nascimento, Francisca Trindade, Maria Jesuína, Sueli Rodrigues e Kehinde. A partir das trajetórias dessas figuras, o núcleo desenvolveu um processo criativo baseado em pesquisa documental, oralidade, literatura e referências audiovisuais, resultando na estrutura dos sete episódios da série.
Milena dos Anjos, a DJ Milis, integrante do núcleo criativo, destaca o impacto emocional da pesquisa. Ela afirma que estudar essas histórias permitiu construir personagens conectadas entre si e com a realidade das mulheres negras brasileiras, ampliando o sentido de pertencimento no processo de criação.
O trabalho foi estruturado por meio da metodologia de núcleo criativo. Um grupo de pesquisadoras levantou informações iniciais sobre cada personagem, que foram aprofundadas com apoio de consultoras especialistas. A partir dessas etapas, foram produzidas as escaletas, definindo a organização dos principais acontecimentos antes da escrita detalhada do roteiro. O método reforça a colaboração e amplia o repertório narrativo, prática que tem ganhado destaque no audiovisual, como ocorreu no filme “Ainda Estou Aqui”, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2024.
Para a produtora Carol Henrique, escrever coletivamente foi uma forma de preservar memórias que frequentemente ficam à margem. Ela afirma que registrar essas histórias garante que trajetórias fundamentais não desapareçam da narrativa nacional.
Carmen Kemoly, realizadora do Cineclube Tela Preta Piauí e coordenadora da iniciativa, destaca que o Piauí tem diversas ações independentes de audiovisual, apesar da ausência de uma escola de formação em cinema. Para ela, o núcleo criativo surge como ferramenta de profissionalização e incentivo, permitindo que mulheres negras desenvolvam projetos de forma estruturada e qualificada. Ela reforça que escrever uma série inteira a partir de um grupo formado exclusivamente por mulheres negras representa um marco simbólico e político.

Personagens inspiradas em mulheres reais
Esperança Garcia foi uma mulher negra escravizada no século XVIII, autora de uma carta enviada ao governador do Piauí denunciando maus-tratos. O documento é considerado um dos primeiros registros de reivindicação de direitos no país.
Sueli Rodrigues é pesquisadora e professora piauiense, referência na valorização da história afro-brasileira e na defesa dos direitos humanos.
Francisca Trindade foi parlamentar e ativista, com atuação destacada na defesa de mulheres negras, trabalhadores vulnerabilizados e políticas de inclusão social.
Kehinde, personagem do romance “Um Defeito de Cor”, de Ana Maria Gonçalves, é inspirada em Luísa Mahin, figura histórica associada a movimentos de resistência negra no período pré-abolicionista.
Maria Jesuína, também conhecida como Nã Agontimé, foi rainha e sacerdotisa ligada à fundação da Casa das Minas, no Maranhão, e responsável pela preservação de tradições religiosas de matriz africana.
Beatriz Nascimento foi historiadora, ativista e uma das principais intelectuais negras do país, com estudos fundamentais sobre quilombos, resistência e identidade afro-brasileira.

Incentivo e realização
O projeto “Entidade” é realizado pelo Cineclube Negro Tela Preta, com financiamento da Lei Paulo Gustavo 2023, por meio do edital Torquato Neto, e apoio da Plataforma de Comunicação Popular Ocorre Diário e do Memorial Casa Maria Sueli Rodrigues.






