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247 – Em um artigo contundente publicado em 23 de janeiro de 2026, o colunista David Brooks, do The New York Times, alerta para o que classifica como um colapso iminente associado à presidência de Donald Trump. Na análise, Brooks sustenta que os Estados Unidos atravessam um período de múltiplas rupturas, todas elas, em maior ou menor grau, impulsionadas pelo comportamento e pela psicologia do atual presidente.

O ponto de partida do texto é um alerta vindo da área de segurança pública. Na semana anterior à publicação do artigo, o chefe de polícia de Minneapolis, Brian O’Hara, afirmou temer o “momento em que tudo explode”. Brooks endossa essa apreensão e argumenta que, ao observar a sequência recente de acontecimentos, torna-se difícil ignorar a sensação de que o país caminha para algum tipo de colapso estrutural.

Segundo o colunista, pelo menos quatro processos de desmoronamento estariam em curso simultaneamente. O primeiro seria o enfraquecimento da ordem internacional construída no pós-guerra. O segundo, a perda da tranquilidade interna em regiões
onde atuam agentes da Imigração e Alfândega (ICE).
David Brooks afirma que a deterioração da mente do presidente alimenta crises internas, externas e institucionais, com riscos crescentes à democracia // Donald Trump (Foto: REUTERS/Denis Balibouse)

O terceiro envolveria ataques à ordem democrática, com pressões sobre a independência do governo federal e acusações contra adversários políticos. Por fim, Brooks destaca aquilo que considera o elemento central de todos os demais: o desmoronamento da mente do presidente Trump.

Na avaliação do articulista, esse último fator é decisivo. Brooks afirma que narcisistas tendem a piorar com a idade, à medida que as inibições remanescentes se dissipam, e que o impacto se torna especialmente profundo quando esse perfil ocupa a Presidência dos Estados Unidos. Ele observa que todos os presidentes que acompanhou ao longo da carreira tornaram-se mais arrogantes com o tempo no cargo, mas que, no caso de Trump, que já teria iniciado o mandato com um nível elevado de autoestima, o resultado seria um quadro de grandiosidade, sentimento de privilégio, ausência de empatia e reações desproporcionais a ofensas percebidas.

Para sustentar sua argumentação, o colunista recorre à história. Ele afirma ter revisitado autores da Roma Antiga, como Salústio e Tácito, que analisaram figuras como Nero, Calígula, Cômodo, Domiciano e Tibério. Esses historiadores, segundo Brooks, compreendiam a conexão íntima entre moral privada e ordem pública, e defendiam que a decadência da primeira inevitavelmente leva ao colapso da segunda.

O artigo cita extensamente o historiador Edward Gibbon, que escreveu em Declínio e Queda do Império Romano que “de todas as nossas paixões e apetites, o amor pelo poder é o mais imperioso e insociável, visto que o orgulho de um homem exige a submissão da multidão”. Gibbon acrescenta que, em períodos de discórdia civil, “as leis da sociedade perdem sua força”, sendo substituídas por violência, medo e pela memória de injustiças passadas, fatores que “inflamam a mente e silenciam a voz da piedade”.

Brooks também recupera reflexões de Edward Wortley Montagu, historiador inglês do século XVIII, que diferenciava ambição de sede de dominação. Enquanto a ambição poderia ser virtuosa por estimular o serviço à comunidade, a sede de dominação seria uma forma de egoísmo extremo, que leva o indivíduo a “centrar tudo em nós mesmos”. Essa paixão, segundo Montagu, “elimina todas as virtudes sociais” e produz relações marcadas pela mentira e pela conveniência.

Com o tempo, pessoas moralmente saudáveis se retraem para sobreviver, enquanto a sociedade como um todo se anestesia diante da repetição de atrocidades, que deixam de chocar e passam a parecer banais.

À medida que esse processo avança, escreve Brooks, os cidadãos podem perder hábitos fundamentais da democracia, como a persuasão, o compromisso, a confiança interpessoal e a intolerância à corrupção. Ele cita Tácito ao afirmar: “É mais fácil esmagar o espírito e o entusiasmo dos homens do que reanimá-los”, acrescentando que a inatividade imposta tende, com o tempo, a ser aceita e até amada.

O autor admite não saber de onde virá o próximo grande abalo — se de uma crise interna, criminal ou externa. Ainda assim, menciona um ensaio de Robert Kagan publicado na revista The Atlantic, no qual o analista escreveu que “os americanos estão entrando no mundo mais perigoso que conheceram desde a Segunda Guerra Mundial, um mundo que fará a Guerra Fria parecer brincadeira de criança e o mundo pós-Guerra Fria parecer um paraíso”.

Apesar do tom severo, Brooks pondera que não acredita em um colapso nos moldes da queda de Roma. Para ele, as instituições americanas são fortes e a população ainda preserva valores democráticos fundamentais. O perigo, no entanto, estaria no fato de que os acontecimentos atuais seriam conduzidos pela “psique perturbada de um homem”, e que a história oferece poucos exemplos de líderes sedentos de poder que tenham se tornado subitamente moderados.

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